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EXCLUSIVO: Eleições nos Estados Unidos mudam equilíbrio de poder em Washington. O que isso significa para o Brasil e para o mundo? | Jornal Em Destaque por Helio de Carvalho em Mundo

EXCLUSIVO: Eleições nos Estados Unidos mudam equilíbrio de poder em Washington. O que isso significa para o Brasil e para o mundo?

Democratas conquistam maioria na Câmara e no Senado, impõem derrota política a Donald Trump e abrem um novo cenário para as relações internacionais. No Brasil, resultado pode influenciar negociações comerciais, tarifas sobre exportações, cotação do dólar e perspectivas econômicas



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Postado há 3 dias | Estados Unidos | Mundo |

Helio de Carvalho

A política americana passou por uma mudança significativa nesta quarta-feira (4), após as eleições legislativas de meio de mandato realizadas nos Estados Unidos. O Partido Democrata conquistou a maioria na Câmara dos Representantes e no Senado, encerrando o controle republicano sobre o Congresso e impondo um importante revés ao presidente Donald Trump. O resultado altera a relação de forças em Washington e poderá produzir consequências muito além das fronteiras americanas, inclusive para o Brasil.

A vitória democrata ocorreu em proporções superiores às previstas por parte dos analistas políticos. O partido conseguiu recuperar cadeiras em estados tradicionalmente republicanos e ampliar sua representação parlamentar em regiões que haviam contribuído decisivamente para a eleição de Trump em 2024.

Com a nova composição, o presidente americano enfrentará um Congresso controlado pela oposição durante os dois últimos anos de seu mandato. Isso não significa que Trump perderá a Presidência ou seus poderes constitucionais, mas sua capacidade de aprovar projetos e implementar determinadas políticas ficará sujeita a um ambiente de maior resistência legislativa.

Para o Brasil, a mudança acontece em um momento particularmente importante. Os dois países negociam questões comerciais relacionadas às tarifas impostas pelo governo americano, enquanto empresas brasileiras enfrentam dificuldades de acesso ao mercado dos Estados Unidos.

O novo cenário pode ampliar as possibilidades de negociação, mas não garante a retirada das barreiras comerciais. Também poderá influenciar o comportamento do dólar, os investimentos internacionais e as decisões econômicas que afetam diretamente a população brasileira.


O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump | Crédito: Jim Watson/AFP O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump | Crédito: Jim Watson/AFP

Eleitores americanos expressam insatisfação com o governo

As eleições de meio de mandato, conhecidas como midterms, acontecem a cada dois anos e renovam integralmente a Câmara dos Representantes e aproximadamente um terço do Senado.

Diferentemente da eleição presidencial, o processo não define quem ocupará a Casa Branca. Entretanto, costuma funcionar como uma avaliação da administração em exercício.

Neste ano, as urnas revelaram insatisfação de parte expressiva do eleitorado com o custo de vida, a condução da economia, a política comercial e a guerra envolvendo Estados Unidos e Irã.

Os democratas conseguiram transformar essas preocupações em ganhos eleitorais em diferentes regiões do país.

No Texas, James Talarico conquistou uma cadeira no Senado, encerrando um longo período sem vitórias democratas em disputas estaduais dessa natureza. O partido também obteve resultados importantes no Kansas, em Ohio e na Carolina do Sul.

Na Câmara, mais de duas dezenas de distritos anteriormente representados por republicanos passaram para o controle democrata.

Levantamentos realizados com eleitores indicaram que a preocupação com os preços e o desejo de ampliar a fiscalização sobre o presidente tiveram peso importante no resultado.

Trump reconheceu a derrota de seu partido e admitiu que o conflito com o Irã contribuiu para o desempenho republicano. Ao mesmo tempo, manteve a defesa de decisões adotadas por sua administração.

A vitória da oposição não elimina as divisões políticas americanas. Os democratas também terão de demonstrar capacidade de apresentar soluções para problemas econômicos e sociais que influenciaram a votação.


O que muda no poder de Donald Trump?

Nos Estados Unidos, o Congresso possui atribuições fundamentais na aprovação de leis, na definição de despesas públicas e na fiscalização do governo federal.

Ao assumir a maioria das duas Casas, os democratas poderão ampliar investigações parlamentares, convocar autoridades para prestar esclarecimentos e exigir negociações em projetos considerados prioritários pela Casa Branca.

O Senado também exerce papel decisivo na aprovação de determinadas nomeações presidenciais, incluindo integrantes do governo federal e magistrados da Suprema Corte.

Uma maioria oposicionista poderá dificultar essas indicações. Entretanto, o presidente continuará dispondo do poder de veto, que permite rejeitar projetos aprovados pelo Legislativo. Para derrubar um veto presidencial, o Congresso precisa reunir uma maioria qualificada de dois terços em cada Casa. Isso significa que os democratas não poderão simplesmente modificar todas as políticas da administração Trump por iniciativa própria.

Outro aspecto importante é o calendário institucional. Os parlamentares eleitos assumirão seus mandatos em janeiro de 2027. Até lá, os republicanos continuarão controlando as duas Casas.

A mudança, portanto, já influencia as expectativas políticas e econômicas, mas seus efeitos legislativos mais amplos ocorrerão a partir do próximo ano.


Foto: Eduardo Munoz/Reuters Foto: Eduardo Munoz/Reuters

Brasil poderá encontrar mais espaço para negociar tarifas comerciais

Entre os assuntos que mais interessam ao Brasil está a política tarifária americana.

O governo Trump ampliou as restrições comerciais sobre produtos estrangeiros, utilizando instrumentos previstos na legislação dos Estados Unidos para impor sobretaxas a diferentes setores.

No caso brasileiro, medidas anunciadas em julho de 2026 estabeleceram tarifas adicionais de 25% e 12,5% sobre parcelas das exportações destinadas ao mercado americano.

Conforme levantamento do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), essas medidas alcançam aproximadamente 23,1% das exportações brasileiras aos Estados Unidos, considerando a composição comercial de 2024.

Em determinadas categorias de produtos, a incidência simultânea das duas sobretaxas pode resultar em um adicional acumulado de 37,5%.

O impacto não é uniforme. Há mercadorias submetidas a regras específicas, enquanto outros produtos permanecem fora das novas sobretaxas.

A alteração no Congresso poderá ampliar o questionamento dessas medidas, especialmente porque parte dos parlamentares democratas defende maior fiscalização sobre os efeitos das tarifas na inflação e nos custos suportados por empresas e consumidores americanos. Entretanto, a mudança de maioria não representa o cancelamento automático das cobranças.

O presidente continuará dispondo de instrumentos legais para conduzir negociações comerciais e aplicar determinadas restrições. Qualquer iniciativa legislativa para limitar esses poderes poderá enfrentar resistência da Casa Branca.

Para o Brasil, a principal oportunidade está na possibilidade de ampliar o diálogo com congressistas e setores econômicos americanos interessados em rever barreiras comerciais.


Exportações brasileiras já sentem os efeitos das restrições

Os números do comércio bilateral ajudam a compreender a dimensão do problema.

Segundo o MDIC, as exportações brasileiras para os Estados Unidos alcançaram US$ 40,4 bilhões em 2024. No ano seguinte, recuaram para US$ 37,7 bilhões.

A tendência de retração continuou em 2026.

No primeiro semestre deste ano, as vendas brasileiras ao mercado americano somaram US$ 17,4 bilhões, uma redução de 13% em comparação com o mesmo período de 2025.

Entre os segmentos que registraram queda estão o petróleo bruto e produtos semiacabados de ferro e aço.

A participação americana nas exportações brasileiras também diminuiu, passando de 12,1% no primeiro semestre de 2025 para 9,4% nos seis primeiros meses de 2026.

Esses indicadores refletem um ambiente comercial mais difícil, embora o desempenho das exportações dependa de diferentes fatores, como preços internacionais, demanda externa, câmbio e condições específicas de cada setor.

A questão também possui relevância para regiões industriais brasileiras.

No Sul Fluminense, onde municípios como Volta Redonda, Barra Mansa, Resende e Porto Real concentram atividades industriais, mudanças nas relações comerciais internacionais podem repercutir sobre empresas integradas às cadeias de produção e fornecimento.

Isso não significa que a vitória democrata produzirá automaticamente novos investimentos ou empregos na região. Seus possíveis efeitos dependerão da evolução das negociações comerciais e da exposição de cada empresa ao mercado internacional.


Governo brasileiro mantém negociações com Washington

Apesar da mudança no cenário político americano, o governo brasileiro sinalizou que pretende manter sua estratégia de negociação.

Na terça-feira (3), o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, afirmou que o resultado eleitoral nos Estados Unidos não alteraria a condução das tratativas comerciais brasileiras.

A expectativa é que Washington apresente uma nova proposta para avançar nas discussões sobre as barreiras tarifárias.

As negociações já estavam em andamento antes das eleições americanas.

Em setembro, representantes dos dois governos concordaram em desenvolver uma agenda de trabalho para discutir obstáculos comerciais e buscar entendimentos sobre questões de interesse bilateral.

Com o Congresso sob controle democrata a partir de janeiro, o Brasil poderá encontrar novos interlocutores políticos, mas continuará dependendo de negociações diretas com a administração Trump.

O resultado das urnas também não elimina as divergências entre Brasília e Washington sobre temas econômicos e diplomáticos.

A condução dessas relações deverá combinar interesses comerciais, decisões políticas e a atuação das instituições dos dois países.


Dólar, investimentos e juros: por que o resultado interessa ao brasileiro?

As consequências das eleições americanas não se restringem às negociações entre governos.

O resultado também pode influenciar os mercados financeiros, particularmente o comportamento do dólar e os fluxos de investimentos internacionais.

Na manhã desta quarta-feira, a moeda americana abriu em queda diante do real, acompanhando seu enfraquecimento em relação a outras moedas.

Por volta das 9h48, o dólar era negociado a aproximadamente R$ 5,475, uma redução de 0,20% naquele momento.

O movimento ocorreu após a confirmação da vitória democrata e em meio à avaliação dos investidores sobre as perspectivas da economia americana.

A possível redução de tensões comerciais e de pressões inflacionárias nos Estados Unidos poderá favorecer moedas de países emergentes, dependendo das decisões econômicas adotadas em Washington.

Mas essa relação não é automática.

Se a nova composição do Congresso produzir impasses prolongados sobre orçamento e política fiscal, a incerteza também poderá provocar volatilidade nos mercados.

Para o consumidor brasileiro, a cotação do dólar influencia diferentes atividades econômicas.

Uma moeda americana mais barata pode reduzir pressões sobre produtos importados, componentes industriais e determinados custos de produção. Por outro lado, também pode modificar a competitividade de exportadores brasileiros.

Os juros nacionais dependem de fatores mais amplos, incluindo a inflação, a situação fiscal brasileira e as decisões do Banco Central.

Portanto, não é possível afirmar que a vitória democrata provocará, isoladamente, queda duradoura do dólar ou redução da taxa Selic.

O resultado eleitoral modifica expectativas, mas os efeitos concretos dependerão das políticas econômicas adotadas nos próximos meses.


NurPhoto via Getty Images NurPhoto via Getty Images

Guerra com o Irã e crise do petróleo entram no centro do debate

No cenário internacional, uma das principais consequências da eleição envolve a condução da guerra com o Irã.

O conflito tem provocado instabilidade no Oriente Médio, afetando o abastecimento energético e pressionando os preços internacionais do petróleo.

A insatisfação de eleitores americanos com os custos econômicos e políticos da guerra foi apontada como um dos fatores que contribuíram para a derrota republicana.

Com o Congresso controlado pela oposição, a administração Trump poderá enfrentar maior fiscalização sobre decisões militares, despesas de defesa e iniciativas diplomáticas.

A mudança poderá aumentar a pressão política por negociações que reduzam as hostilidades. Entretanto, a política externa americana continua sob forte influência do Poder Executivo, e a composição do Congresso não garante uma mudança imediata na condução do conflito.

Para o Brasil, a situação merece atenção porque os preços internacionais do petróleo podem afetar combustíveis, transporte de mercadorias e custos de produção.

Uma eventual redução das tensões no Oriente Médio poderia aliviar parte dessas pressões. Por outro lado, novos episódios de instabilidade poderiam manter os preços elevados.

O comportamento do mercado energético também depende da produção mundial, dos estoques disponíveis e das condições de transporte e distribuição.


Ucrânia, Europa e China acompanham mudança no Congresso

A vitória democrata também poderá produzir efeitos sobre outros temas centrais da política internacional.

Na guerra entre Rússia e Ucrânia, a nova maioria parlamentar poderá ampliar a discussão sobre assistência militar e financeira ao governo ucraniano. Entretanto, a aprovação de novos recursos dependerá de negociações legislativas e da relação entre Congresso e Presidência.

Na Europa, governos e instituições acompanham a possibilidade de mudanças na postura americana em relação às alianças militares, aos acordos comerciais e às restrições sobre produtos estrangeiros.

A política tarifária também continuará sendo um dos principais temas nas relações entre Washington e Pequim.

A China, maior rival econômica dos Estados Unidos, poderá observar novas oportunidades de negociação diante da redução da capacidade de Trump de conduzir sua agenda com apoio majoritário no Congresso.

Isso não significa, necessariamente, uma aproximação entre os dois países. As divergências sobre tecnologia, segurança e comércio são estruturais e envolvem interesses defendidos por políticos republicanos e democratas.

Outro setor que poderá receber maior atenção legislativa é o de tecnologia, especialmente em questões relacionadas à inteligência artificial, infraestrutura digital e regulação das grandes empresas.

A amplitude desses temas demonstra que o resultado eleitoral americano não afeta apenas a política doméstica, mas também relações econômicas e estratégicas em diferentes continentes.


Um novo Congresso, mas muitas decisões ainda pela frente

A mudança na composição do Congresso representa uma transformação importante para a segunda metade do mandato de Donald Trump.

Depois de dois anos de apoio majoritário dos republicanos no Legislativo, o presidente passará a enfrentar um ambiente de maior fiscalização e negociação institucional.

Para os democratas, a vitória oferece instrumentos para influenciar a agenda política, mas também amplia a responsabilidade de apresentar respostas aos problemas que mobilizaram os eleitores.

No Brasil, o resultado abre possibilidades, especialmente nas negociações comerciais e na busca por condições mais favoráveis para exportadores.

Ainda assim, os efeitos dependerão de decisões concretas.

As tarifas americanas permanecem em vigor conforme as regras aplicáveis, os mercados financeiros continuarão sujeitos a oscilações e as relações diplomáticas exigirão negociação entre os governos.

O mesmo vale para o cenário internacional, no qual conflitos militares, interesses econômicos e alianças estratégicas não serão redefinidos apenas pelo resultado de uma eleição.

As urnas americanas mudaram o equilíbrio de poder em Washington. A partir de janeiro, o desafio será transformar essa nova composição política em decisões capazes de influenciar a economia, a diplomacia e a segurança internacional.

Para o Brasil, acompanhar esses desdobramentos será fundamental. Afinal, decisões tomadas no Congresso dos Estados Unidos podem repercutir sobre exportações brasileiras, investimentos, preços e oportunidades de desenvolvimento, mesmo a milhares de quilômetros de distância.





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