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Greve em Barra Mansa chega ao quarto dia, vai à Justiça e expõe disputa sobre salários de professores | Jornal Em Destaque por Orlando Dias em Da Redação

Greve em Barra Mansa chega ao quarto dia, vai à Justiça e expõe disputa sobre salários de professores



Greve em Barra Mansa chega ao quarto dia, vai à Justiça e expõe disputa sobre salários de professores Classificação

Postado há 9 dias | Barra Mansa | Da Redação |

Orlando Dias

A greve dos profissionais da educação municipal de Barra Mansa, no Sul Fluminense, chega ao quarto dia nesta quinta-feira (29) sem perspectiva confirmada de encerramento. A paralisação, iniciada na segunda-feira (26), é resultado de um impasse entre a Prefeitura e o Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação (Sepe-RJ) sobre alterações nas regras de remuneração dos professores. O conflito já chegou ao Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ) e levanta uma preocupação adicional: as consequências da mobilização para os estudantes da rede pública.

No centro da controvérsia está a Lei Municipal nº 6.182/2026, que modificou as regras de pagamento de gratificações dos profissionais da educação. A principal alteração envolve o adicional de magistério, conhecido como regência, que anteriormente correspondia a 41% do vencimento-base e passou a ter esse percentual como limite máximo.

Na prática, a mudança permite que o Executivo municipal estabeleça anualmente o percentual do benefício, respeitando o teto previsto na legislação. Para o sindicato, a alteração retira uma garantia remuneratória e cria a possibilidade de redução dos valores recebidos pelos professores.

A Prefeitura sustenta que a medida reorganiza os critérios de concessão das gratificações e afirma que não representa, por si só, retirada de direitos adquiridos.

O impasse ganhou intensidade depois da aprovação da proposta na Câmara Municipal, em 22 de outubro. Na ocasião, profissionais da educação acompanharam a sessão legislativa e protestaram contra as mudanças. A mobilização resultou na decisão de iniciar a greve quatro dias depois.

Na quarta-feira (28), Dia do Servidor Público, os professores realizaram novos atos de protesto. Sem acordo anunciado entre as partes, o sindicato manteve a paralisação e decidiu recorrer ao Judiciário.


De 41% garantidos a um percentual que poderá variar

A principal reivindicação dos professores está relacionada à mudança na forma de cálculo do adicional de regência.

O Plano de Carreira e Remuneração dos Profissionais do Ensino Público Municipal, instituído pela Lei nº 4.468/2015, previa originalmente um adicional de magistério de 95%. Depois de alterações promovidas em 2023, o percentual foi estabelecido em 41%.

A legislação anterior fixava esse índice para os profissionais abrangidos pelo benefício. Com a mudança aprovada neste mês, os 41% passam a representar o limite máximo da gratificação, cuja definição poderá ocorrer anualmente por ato da administração municipal.

A diferença é relevante.

Em uma situação hipotética, um professor com vencimento-base de R$ 3 mil teria uma gratificação de R$ 1.230 caso recebesse o adicional integral de 41%. Se o percentual fosse fixado em 30%, por exemplo, o benefício seria de R$ 900, uma diferença mensal de R$ 330.

O exemplo é apenas ilustrativo e não representa o salário de um profissional específico da rede municipal. Também não significa que a Prefeitura tenha determinado uma redução para 30%.

O ponto central é que a nova regra abre a possibilidade de percentuais inferiores ao anteriormente estabelecido, dependendo dos atos administrativos que regulamentarem seu pagamento.

A alteração também alcança outras funções da educação municipal. Intérpretes de Língua Brasileira de Sinais (Libras) e secretários escolares passam a ter gratificações limitadas a 40%, enquanto profissionais envolvidos com gestão, planejamento e acompanhamento pedagógico poderão receber adicionais de até 41%, conforme os critérios previstos.

O sindicato argumenta que a definição dos percentuais por decisões anuais compromete a segurança financeira dos servidores, que dependem da previsibilidade de seus vencimentos para organizar o orçamento familiar.


Câmara aprovou mudança por 18 votos a um

A alteração nas gratificações foi encaminhada à Câmara Municipal pelo prefeito Luiz Furlani, por meio da Mensagem nº 29/2026.

Os registros oficiais do Sistema de Apoio ao Processo Legislativo (SAPL) confirmam que a proposta foi aprovada na sessão de 22 de outubro por 18 votos favoráveis e um contrário.

O único voto contrário foi do vereador Marcell Castro, do PDT.

A votação provocou forte reação dos profissionais que acompanhavam a sessão e foi seguida pela convocação de uma assembleia sindical, na qual a categoria decidiu iniciar o movimento grevista.

A aprovação ocorreu em meio a divergências antigas entre os profissionais da educação e a administração municipal sobre o pagamento das gratificações.

Em 2023, durante a gestão do ex-prefeito Rodrigo Drable, uma mobilização semelhante terminou com a definição da regência em 41%, após discussões que envolveram o valor e os critérios de concessão do benefício.

Já em julho de 2025, uma greve de professores foi encerrada depois de negociações com o atual governo municipal. O sindicato afirma que, naquela ocasião, houve compromissos de manutenção dos direitos remuneratórios que agora estariam sendo contrariados.

A Prefeitura e o sindicato apresentam interpretações diferentes sobre o alcance desses compromissos.


Piso nacional de R$ 5.130,63 também divide Prefeitura e professores

Paralelamente à alteração da regência, a administração municipal anunciou a implementação do piso salarial nacional do magistério a partir de 2027.

O prefeito Luiz Furlani apresentou a medida como um avanço para os profissionais, informando o valor de R$ 5.130,63.

A proposta foi encaminhada à Câmara por meio da Mensagem nº 30/2026 e, conforme os registros oficiais do Legislativo, aprovada por maioria absoluta na sessão de terça-feira (27).

Entretanto, o anúncio também provocou questionamentos.

O valor de R$ 5.130,63 corresponde ao piso nacional do magistério de 2026, considerado para uma jornada semanal de 40 horas.

A legislação federal admite a proporcionalidade do vencimento para professores submetidos a jornadas inferiores.

Em Barra Mansa, parte dos profissionais cumpre jornada de 22 horas semanais. Aplicando-se a proporcionalidade ao piso nacional informado, o valor correspondente seria de aproximadamente R$ 2.821,85.

Esse cálculo não representa, necessariamente, a remuneração final de cada professor, pois os vencimentos podem variar conforme a jornada, a posição na carreira e a incidência de adicionais previstos em lei. É justamente nessa combinação entre vencimento-base e gratificações que se concentra outra parte do conflito.

O sindicato sustenta que a apresentação do piso integral de 40 horas, sem esclarecimento sobre a proporcionalidade e os efeitos da alteração da regência, pode criar uma expectativa de reajuste superior ao que será efetivamente recebido por parte dos servidores.

A Prefeitura, por sua vez, afirma que a proposta de implementação do piso respeita as exigências orçamentárias e a Lei de Responsabilidade Fiscal.

A aprovação legislativa não esclarece, isoladamente, quanto cada profissional passará a receber. Para isso, será necessário conhecer a tabela de vencimentos aplicável, a jornada de cada cargo e os percentuais das gratificações.


Sindicato recorre ao Tribunal de Justiça

Diante da aprovação da Lei Municipal nº 6.182/2026, o Sepe-RJ ingressou com uma ação de inconstitucionalidade no Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro.

A entidade pede a suspensão dos dispositivos que modificaram as gratificações e a preservação dos percentuais previstos anteriormente.

O questionamento judicial também abrange os adicionais destinados a intérpretes de Libras, secretários escolares e profissionais que atuam na gestão pedagógica.

Outro argumento apresentado pelo sindicato envolve a transparência na tramitação legislativa. A entidade afirma que o conteúdo da proposta não estava disponível para acompanhamento público durante parte de sua análise e que essa circunstância comprometeu a possibilidade de participação dos interessados.

A ação, conforme informações divulgadas na quarta-feira (28), foi encaminhada para apreciação do desembargador relator.

Até a atualização desta reportagem, não havia sido confirmada decisão judicial suspendendo os dispositivos questionados.

Portanto, o ajuizamento da ação não significa que as alterações tenham sido anuladas ou que o sindicato tenha obtido decisão favorável sobre o mérito da controvérsia.

A definição sobre a constitucionalidade das mudanças dependerá da análise do Poder Judiciário.


Outras reivindicações incluem condições de trabalho e educação infantil

A discussão salarial representa o principal motivo da greve, mas não é a única reivindicação apresentada pelos profissionais.

O sindicato também cobra melhorias nas condições de trabalho, incluindo climatização das salas de aula e revisão das jornadas de determinados servidores.

Outra demanda envolve a aplicação da Lei Federal nº 15.326/2026, sancionada em janeiro, que reconhece profissionais da educação infantil como integrantes da carreira do magistério quando atendidos os requisitos legais.

A legislação considera, para fins de enquadramento, profissionais que exercem funções docentes e atuam diretamente com crianças, possuem a formação exigida e ingressaram por concurso público, independentemente da denominação original do cargo.

A norma também prevê regulamentação pelo ente público responsável.

O Sepe defende que a Prefeitura examine a situação das auxiliares de creche e adote as providências necessárias para o enquadramento daquelas que preencham as condições previstas na legislação.

A reivindicação amplia o conflito para além dos professores que atuam diretamente nas salas de aula do ensino fundamental e envolve diferentes segmentos da educação municipal.


Prefeitura considera greve ilegal e admite medidas administrativas

A administração de Luiz Furlani reagiu à paralisação afirmando que o movimento é ilegal.

Em manifestação encaminhada à imprensa regional, a Prefeitura informou que poderá adotar medidas administrativas em relação aos profissionais que deixarem de comparecer ao trabalho sem justificativa.

O posicionamento do governo municipal acrescentou um novo ponto de tensão às negociações.

A declaração da Prefeitura, entretanto, deve ser distinguida de uma eventual decisão judicial sobre a legalidade da paralisação.

Até o momento, não foi identificada decisão específica do Tribunal de Justiça declarando a ilegalidade da greve iniciada em 26 de outubro.

O município também sustenta que a mudança nas regras das gratificações não implica redução automática dos benefícios e que o anúncio do piso nacional representa uma medida de valorização profissional.

Os professores, por outro lado, argumentam que a possibilidade de alteração futura dos percentuais compromete a estabilidade da remuneração.

O conflito envolve, portanto, não apenas os valores atualmente pagos, mas as garantias legais que determinarão a composição dos vencimentos nos próximos anos.


E os alunos? Rede possui mais de 15 mil estudantes

Enquanto Prefeitura e sindicato discutem os aspectos legais e financeiros, a continuidade da paralisação provoca dúvidas entre as famílias atendidas pela rede municipal.

Barra Mansa iniciou o ano letivo de 2026 com 71 unidades de ensino e mais de 15 mil estudantes matriculados, segundo dados divulgados pela própria administração municipal em fevereiro.

A estrutura atende alunos da educação infantil, do ensino fundamental e da Educação de Jovens e Adultos (EJA).

A dimensão da rede demonstra a importância de informações claras sobre o funcionamento das escolas durante a greve.

Apesar das manifestações e da continuidade do movimento, não foi divulgado um levantamento consolidado que permita identificar quantas unidades tiveram aulas interrompidas, quantas turmas foram afetadas ou qual percentual de profissionais aderiu à paralisação.

Na segunda-feira (26), o diretor do Sepe em Barra Mansa, Betto Almeida, afirmou que a adesão era significativa e poderia aumentar nos dias seguintes, mas não apresentou um percentual geral.

Assim, não é possível afirmar que todas as escolas estejam paralisadas ou quantificar o número de estudantes sem aulas.

Outro ponto de atenção é o calendário de sexta-feira (30).

A Prefeitura anunciou a transferência do ponto facultativo do Dia do Servidor Público para essa data, mas esclareceu que as aulas da rede municipal estão previstas para acontecer normalmente, uma vez que a folga dos profissionais da educação já havia sido transferida anteriormente.

O comunicado, contudo, trata do calendário administrativo e não resolve, por si só, os efeitos da greve sobre o funcionamento efetivo das escolas.

Para as famílias, permanecem questões práticas: quais unidades estão atendendo normalmente, como serão comunicadas eventuais suspensões e de que maneira poderão ser repostas as atividades não realizadas?

Essas informações ainda dependem de atualização da Secretaria Municipal de Educação.


Impasse se aproxima de uma semana sem solução anunciada

Com a continuidade da paralisação, o conflito passa a envolver simultaneamente três frentes: a negociação entre professores e Prefeitura, o andamento da ação judicial e a garantia de continuidade do atendimento escolar.

A legislação que altera as gratificações foi aprovada. A proposta referente ao piso nacional para 2027 também recebeu aprovação da Câmara. Entretanto, permanecem divergências sobre os efeitos financeiros dessas medidas e sobre as garantias remuneratórias dos profissionais.

Do lado do sindicato, a principal exigência é preservar direitos considerados essenciais para a estabilidade salarial da categoria.

A Prefeitura defende as medidas encaminhadas ao Legislativo e mantém sua posição contrária à greve.

Entre essas duas posições estão os estudantes e suas famílias, que precisam de informações objetivas sobre o funcionamento da rede e a continuidade do calendário escolar.

A solução do impasse dependerá das próximas etapas de negociação, das providências administrativas e das decisões judiciais que poderão ser tomadas.

Até lá, a discussão sobre os salários dos professores de Barra Mansa continuará acompanhada por outra questão de interesse público: como assegurar a valorização dos profissionais da educação sem comprometer o direito dos alunos à continuidade das aulas?






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