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Pais e filhos 4.0: as relações familiares sob a ótica da pós-modernidade | Jornal Em Destaque por Helio de Carvalho em Da Redação

Pais e filhos 4.0: as relações familiares sob a ótica da pós-modernidade



Pais e filhos 4.0: as relações familiares sob a ótica da pós-modernidade Classificação

Postado há 5 ano(s) | Rio de Janeiro | Da Redação |

Helio de Carvalho

Por Sheila Fonseca*

 

O mês de março de 2020 certamente ficará na memória de todos no país, por gerações. Foi quando a doença, covid-19, que aos olhos de muitos não chegaria aos Tristes Trópicos* [referência à narrativa etnográfica do antropólogo Claude Lévi-Strauss], chegou oficialmente ao Brasil, transformando-se em pandemia e causando a maior disrupção no campo sociocomportamental dos últimos 100 anos. A partir disto, decretou-se o temido lockdown, bem como a utilização de máscaras e o distanciamento social, que se mantém ainda hoje e precipitou em definitivo a mudança nas construções relacionais e afetivas.


Com a pandemia, o avanço da sociedade 4.0, a mudança nas práticas laborais e influência das redes nas relações se acentuou. Em pesquisa do Procon-SP, feita no ano de 2020, foi apresentado um aumento na utilização de internet por crianças a partir dos 9 anos e no tempo de conexão. Segundo o estudo, 32,06% das crianças e adolescentes pesquisados permanecem conectados mais de 2 até 4 horas por dia em atividades diversas; 27,53% se conectam mais de 4 até 6 horas por dia, 20,03% permanecem conectados mais de 6 horas por dia e 17,07% se conectam até 2 horas por dia. 3,31% dos pais afirmaram simplesmente não saber quanto tempo seu filho permanece conectado. E aqui vem o dado preocupante: Em relação ao comportamento do filho, se o entrevistado percebeu alguma mudança decorrente da sua relação com a internet, a maioria afirmou que não, 69,34%, mas cerca de um terço dos entrevistados, 30,66%, afirmou que sim. Entre as mudanças mais citadas estavam transtornos psicológicos, tais como irritação, isolamento social e sofrimento por estar desconectado.


Se o sociólogo Zygmunt Bauman cunhou o conceito de “modernidade líquida” para referenciar as ligações sócioafetivas da pós-modernidade, pautadas pela efemeridade das relações e o individualismo no “estado da arte”; o advento das mídias horizontais aprofundou essa forma de se relacionar chegando aos núcleos familiares. “Nada é feito para durar”, sentenciou duramente o sociólogo. E isto vai do seu relógio de pulso, passando pelo modelo de celular, até o seu casamento. Mas essa dinâmica da impermanência valeria também para relação entre pais e filhos?


Para tentar compreender isto, conversamos com o escritor e pesquisador Marco Juarez Reichert, especialista em sociedades 4.0, revolução industrial, inteligência artificial e automação; e, também, com o psicólogo, psicanalista, tradutor e escritor Marlos Drumond Villalba.


Marco Juarez Reichert (Foto divulgação) Marco Juarez Reichert (Foto divulgação)

Marco Juarez Reichert é gaúcho de Novo Hamburgo, bacharel em Administração de Empresas pela Feevale, possui MBA em Finanças e Governança pela Espm, pós-MBA em Inteligência Empresarial pela FGV, é pós-graduando em Negócios Inteligentes e Indústria 4.0 pela FIA, e recentemente lançou seu segundo livro, fruto de pesquisa sobre sociedades 4.0: “A Metamorfose do Vencedor”, pela editora Alta Books. O livro é referenciado em pesquisas acadêmicas sobre a temática 4.0, além do trabalho de autores como o economista alemão Klaus Martin Schwab e o historiador israelense Yuval Noah Harari.


Na opinião de Marco Juarez Reichert, essas mudanças trazem um impacto profundo nas relações entre pais e filhos, pautadas hoje pela maior complexidade, aliada à sensação de impermanência das coisas, o que traz uma atmosfera de muita insegurança para uma relação já fragilizada:

Todos estamos, ou deveríamos estar, cientes dos novos tempos, de um mundo em profunda transformação tecnológica. Mas e quanto às mudanças comportamentais das novas gerações? Sempre foi difícil criar filhos. Atualmente, com um mundo de alta complexidade, cheio de incertezas, de ambiguidade, paira sobre nós, pais, uma certa dose de insegurança em relação à educação dos filhos, e no futuro deles. São pontos comuns a todos os pais responsáveis e que amam, verdadeiramente, sua prole”, analisa o escritor.


Marlos Drumond Villalba, é carioca, psicólogo graduado na UFRJ, psicanalista de formação, tradutor, escritor e poeta, autor convidado da antologia "Ser Poeta" publicada no Brasil, autor do livro "Pássaro de fogo", publicado na Argentina, e com novo livro "Vida proibida" aguardando publicação no Brasil. Também participou como autor convidado do livro "Fraturas expostas pela pandemia", editora Encontrografia, e é membro do projeto de saúde mental Experiência de Escuta.


Marlos Drumond Villalba (Foto: Acervo Pessoal) Marlos Drumond Villalba (Foto: Acervo Pessoal)

O psicólogo acredita que as gerações anteriores possuíam uma percepção mais sólida do mundo, o que resultaria em um aprofundamento da sensação de distanciamento:

As mídias sociais levam a uma necessidade permanente de estar disponível para a próxima notificação, o próximo like, o que leva às pessoas, pais e filhos, a terem muita dificuldade em focar no tempo presente e sim no futuro. Essa espécie de limbo gera sujeitos insatisfeitos e confusos, pois ao mesmo tempo que negam o passado e não concretizam o presente, pensando sempre no futuro, querendo controlar o futuro. Na geração anterior, que tinha uma percepção mais sólida do mundo, as coisas permaneciam mais tempo, as mudanças eram muito mais lentas e podiam fazer mais planos para o futuro, tinham mais perspectiva. E a geração nova se contrapõe a tudo isso sendo imersa num mundo fluido, como diria Bauman, com sentimentos fluidos, transformações constantes e uma perigosa aceitação da ideia de que ‘nada deve durar’, sem conseguir parar para analisar os efeitos dessa fluidez na vida”, diz Villalba.


Sobre pesquisas que apontam o aumento exponencial da utilização de internet por crianças e adolescentes, Reichert e Villalba concordam que o desafio para pais e educadores na formação humanizadora de “filhos 4.0” é grande, mas não impossível.


Reichert acredita que o foco deve ser na humanização, sempre. E alerta que os pais também estão inseridos nesse contexto 4.0, e precisam começar a praticar essa mudança a partir deles mesmos. Segundo o especialista, o maior exemplo é a imitação, e a fala dos pais precisa estar em consonância com a prática:

É um desafio tremendo, certamente. Muitas vezes não temos uma resposta adequada. Há inúmeros estudos a respeito e valeria a pena os pais se aprofundarem neles, para fazerem as melhores escolhas, livremente, daquilo que entenderem ser melhor para os seus filhotes. Em primeiro lugar, também os pais devem resistir à tentação de estar entregues às redes sociais, permanentemente, e servir como exemplo para os filhos”, diz Reichert.


O escritor completa alertando a necessidade de interações reais, pois o virtual nunca substituirá, no campo da simulação, o calor e emoção humanos:

 

Precisamos de interações sociais no mundo real, o físico. Falar olhando para as pessoas, ouvir, participar com opiniões e gestos, caracterizam algo que a humanidade não pode perder. Se seguirmos focados apenas nas relações digitais, avançaremos para uma época em que as máquinas vão superar as pessoas, através das combinações da Inteligência Artificial, Internet das Coisas, Conectividade, Robótica... Não queremos isso, então devemos agir como humanos”, sentencia o escritor.


Villalba ressalta que é importante o equilíbrio na utilização das tecnologias por pais e filhos:

Não se trata de apenas rejeitar as mudanças cegamente, proibir todo e qualquer uso da tecnologia que tudo será resolvido. Como dizia o cantor Belchior, ‘o novo sempre vem’. E temos que lidar com ele. E o novo, como outras tantas vezes na história, nos obriga a realizar essa análise durante o percurso. Acredito que o desafio maior seja encontrar o equilíbrio entre a capacidade de análise e a perspectiva da geração dos pais com a incrível capacidade de alguns jovens - digo alguns, porque nem todos conseguem e acabam sucumbindo a diversos tipos de sofrimento psíquico como ansiedade e angústia - de lidarem com uma grande quantidade de informação, pois cada geração pode contribuir muito com a outra. Esse equilíbrio só poderá ser atingido com muito diálogo dentro das casas e fora delas (na sociedade)”, analisa o psicólogo.

 

Lente tecnológica para um conflito essencialmente humano


O filtro que norteia o olhar 4.0 é pós-moderno, mas aponta um conflito tão antigo quanto o próprio conceito de humanidade, da forma como o entendemos. A filosofia, a pintura, a dramaturgia e mais recentemente o cinema, dão conta dessas questões há muito tempo.


Robert Sean Leonard e Kurtwood Smith em cena de Sociedade dos Poetas Mortos Robert Sean Leonard e Kurtwood Smith em cena de Sociedade dos Poetas Mortos

Em “Sociedade dos Poetas Mortos”, filme de Peter Weir de 1989, essa dicotomia entre pais e filhos é abordada de maneira simbólica através de Shakespeare, com “Sonho de Uma Noite de Verão”, permeando a tensão dramática dos atores Kurtwood Smith e Robert Sean Leonard, brilhantemente interpretando pai e filho. No filme, a peça de Shakespeare entra simbolizando a perda de autorreferência e da personalidade individual, subtexto dessa obra shakespeariana. Num espelhamento da relação de submissão entre filho e pai, retratada na tela, e a perda de identidade em meio às angústias e pressões sociais da adolescência. No cinema, o que era drama virou tragédia, com o suicídio do filho. Na realidade não tem sido muito diferente. Segundo dados do ministério da saúde, nos últimos 4 anos houve um aumento de 12% na estatística de suicídios. 


A Região Sul apresenta 23% dos casos, embora responda por 14% da população brasileira. Rio Grande do Sul lidera o ranking, com 4 de cidades e é acompanhado com atenção há pelo menos uma década. No Sudeste, região que concentra 42% da população, foram registrados 38% dos suicídios registrados no país. Entre crianças e jovens esse crescimento é mais preocupante. O Jornal Brasileiro de Psiquiatria publicou um estudo do Scielo chamando a atenção para o aumento da tendência de suicídio entre adolescentes e jovens de 10 a 19 anos. E com a hiperconexão propiciada pelas mídias digitais, é uma estatística que aponta um problema real, que só tende a aumentar.


Somente em 2021, uma sequência de três suicídios ocorreu em dois meses na FFLCH, da USP, um deles dentro das dependências da universidade, acendendo o alerta da comunidade acadêmica. E no último dia 3 de agosto, um adolescente de 16 anos, filho da cantora de forró Walkyria Santos, cometeu suicídio após ser vítima de cyberbullying e homofobia, em decorrência de uma brincadeira onde simulava um beijo em um amigo, no aplicativo Tik Tok, febre entre crianças e adolescentes. A cantora fez um alerta emocionado aos pais usando a rede social instagram:

Essa internet está doente, então, vigiem, porque quando as pessoas estão um pouco fracas, elas não aguentam”, finalizou a mãe.


Para Marlos Villalba, a forma como as redes sociais impactam emocionalmente crianças e jovens é devastadora:

No documentário ‘Dilema das Redes’, de Jeff Orlowski, vemos relatos de como os criadores das redes pensaram essas ferramentas e como, depois de verem os efeitos nos jovens, decidiram combatê-las. E como muitos dos antigos CEOs e programadores de grandes conglomerados da tecnologia hoje não permitem que seus filhos muito novos tenham acesso às redes ou controlam de perto esse acesso. Por isso, redes alienantes como tik tok deveriam ter pelo menos uma restrição de idade. Entendo que vivemos numa sociedade onde os próprios pais também se veem imersos nesse mundo por total falta de opção e, também, muitas vezes não se dão conta do ritmo frenético em que se encontram suas vidas, muito menos o efeito que isso tem em seus filhos. Não vejo com bons olhos o andamento desse processo de tecnologização da vida, pois há pouca possibilidade de regulação das redes por parte dos pais, devido ao ritmo de trabalho intenso, o que deixa os jovens, que em sua maioria não foram preparados para realizar qualquer tipo de análise crítica, suscetível a ataques de todo tipo nas redes sociais, pois sentem suas vidas inalienavelmente ligadas ao uso das redes. As celebridades também, ao se colocar num lugar de destaque, ficam suscetíveis a esses mesmos ataques. Penso que o debate sobre o uso e o abuso dessa ferramenta deve ser cada vez mais amplo, atingindo todos os níveis da sociedade, fazendo com que essa ferramenta chegue de outra forma ao público”, alerta Villalba. 


Para Reichert, apesar da dificuldade, é fundamental não ceder e impor limites:

Parece que não impor certos limites, como em tudo na vida, também não representa a melhor maneira de educar. Para começar, que tal não permitir o uso de smartphones ou tablets nas horas das refeições em família? Se alcançarem o intento, já terão vencido uma primeira etapa, pois as relações humanas não podem ser sempre por meios digitais”, salienta.

 

O afeto é o hyperlink


Na opinião de Reichert, o conflito de gerações entre pais e filhos se dá pela inadequação das partes na busca pelo ajuste dessa relação. Segundo o especialista, ambos precisam ceder, e salienta que a base de tudo é o diálogo, que nunca sai de moda:

Levar vantagem em tudo é bordão comercial que se notabilizou há décadas neste país e revela uma mentalidade que precisamos superar, o que começa no seio de nossas próprias famílias. Muitos pais não entendem o comportamento dos filhos. Noutro extremo, nem falar daqueles que tudo toleram e mimam sua prole, exageradamente. Quem sabe uma conversa franca entre eles e os filhos, apresentando suas razões?”, sugere Marco Juarez Reichert.


Villalba concorda com Reichert. O psicólogo também acredita na construção de pontes através do mais antigo e poderoso exercício: o diálogo feito com afeto. Mas ressalta que esse é um trabalho a ser construído no dia a dia: 

Apesar de tudo, acredito no ser humano, de forma geral, em tudo o que ele pode fazer, porém essa esperança não pode ser vista como algo platônico, uma utopia imutável e perfeita, essa esperança deve ser exercida e construída dia a dia, ou como diria Paulo Freire, o exercício de “esperançar”. Por isso se não começarmos agora, um tempo cada vez mais fugidio, eu sei, e é por isso que insisto nele; ou o quanto antes na tentativa de construir pontes intergeracionais e mais capacidade de escutar o outro, todas essas questões vão apenas se aprofundar”, pondera o psicoterapeuta.


*Sheila Fonseca é jornalista e terapeuta reikiana habilitada pela Sociedade de Reiki Mikao Usui. Cursou licenciatura em história e hoje cursa gestão ambiental, na Uniube.





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