O Estado do Rio de Janeiro iniciou uma nova etapa de preparação dos 92 municípios fluminenses para os possíveis impactos do El Niño. O planejamento reúne sistemas de monitoramento e alerta, ferramentas para identificação de áreas vulneráveis e uma agenda de capacitações destinada às equipes municipais responsáveis pela prevenção e resposta a eventos climáticos extremos.
As medidas foram apresentadas na quinta-feira (20), durante encontro realizado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), com representantes do Governo do Estado e das prefeituras. Entre os cenários considerados estão ondas de calor, chuvas intensas, enchentes, períodos de estiagem e aumento do risco de queimadas.
A proposta é ampliar a capacidade de antecipação dos
municípios e integrar informações de diferentes áreas do poder público, como
Defesa Civil, Saúde, Meio Ambiente e Agricultura, para orientar ações
preventivas e reduzir os impactos sobre a população.

Mapa identifica áreas e populações mais vulneráveis
Uma das principais ferramentas apresentadas pela Secretaria de Estado de Defesa Civil, que preside o Comitê Estadual de Enfrentamento aos Efeitos do El Niño, foi o primeiro Mapa de Risco Humano.
A plataforma de geoprocessamento cruza informações sobre ameaças climáticas, exposição da população e vulnerabilidade social. A partir desses dados, será possível identificar áreas que exigem maior atenção e direcionar recursos e ações preventivas com mais precisão.
A estrutura estadual também prevê atuação do Gabinete Integrado de Gestão de Riscos e da Força Especializada, com salas de situação e monitoramento por drones, além da validação dos Planos Estaduais de Contingência. Outra frente é a Política Amar, destinada ao acolhimento de animais resgatados em situações de desastre.

Saúde terá alertas para períodos de calor extremo
Na área da Saúde, uma das principais iniciativas será a utilização do Índice Multidimensional de Excesso de Calor. O método combina informações meteorológicas, ambientais, demográficas e dados assistenciais do Sistema Único de Saúde para avaliar o risco provocado por altas temperaturas em cada município.
A previsão é que o Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde possa emitir alertas com até cinco dias de antecedência, permitindo que gestores locais adotem medidas de proteção antes dos períodos considerados mais críticos.
O planejamento inclui ainda pontos de hidratação nas 27 UPAs estaduais, reforço de veículos de intervenção rápida e motolâncias, duas aeronaves destinadas a operações de salvamento e transporte de insumos e o mapeamento comunitário de pessoas com mobilidade reduzida.

Monitoramento de rios e prevenção de enchentes
O plano também reforça a atenção aos recursos hídricos. A Secretaria de Estado do Ambiente e Sustentabilidade e o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) vão ampliar a utilização da Rede Hidrometeorológica e do Sistema de Alerta de Cheias, além do acompanhamento do Sistema Paraíba do Sul/Guandu.
Outra frente envolve dragagem e limpeza manual e mecanizada de rios e outros corpos d'água nas regiões hidrográficas fluminenses, como forma de apoiar os municípios em ações de prevenção a enchentes.
Nos períodos de estiagem, o planejamento prevê ações integradas contra incêndios florestais, incluindo o monitoramento e a proteção das 39 Unidades de Conservação estaduais.
Agricultura e pesca entram no planejamento
Os efeitos do clima sobre a economia do interior também fazem parte da estratégia. A Secretaria de Agricultura, Pecuária, Pesca e Desenvolvimento Interior disponibilizará aos municípios diagnósticos sobre possíveis impactos no setor agropecuário e pesqueiro.
As informações deverão orientar rotas prioritárias de assistência técnica e atendimento em campo, sobretudo em áreas sujeitas à redução de produtividade, estresse hídrico ou danos à infraestrutura rural.
O objetivo é oferecer aos produtores informações que permitam antecipar medidas de proteção e reduzir perdas diante de mudanças mais acentuadas nas condições climáticas.

Capacitações começam na próxima semana
A integração com as prefeituras será acompanhada por uma programação de treinamentos técnicos. Entre os dias 25 e 28 de agosto, a Secretaria de Estado de Saúde realizará oficinas presenciais destinadas às equipes municipais de Vigilância em Saúde e Atenção Primária.
Durante os encontros serão apresentados os protocolos de resposta de acordo com os diferentes níveis de severidade, classificados de 0 a 4. Também está prevista a distribuição de materiais de orientação destinados a gestores, profissionais, população e equipes envolvidas com proteção animal.
No dia 26 de agosto, a Defesa Civil estadual realizará uma oficina para orientar a implantação das Salas Municipais de Observação e Monitoramento de Eventos Climáticos.
A programação continua em setembro. No dia 3, haverá treinamento para elaboração e atualização dos Planos Municipais de Contingência. No dia 11, o tema será planejamento orçamentário aplicado à Proteção e Defesa Civil. Já no dia 17, a orientação técnica será voltada à criação dos Fundos e Conselhos Municipais de Proteção e Defesa Civil.
Também está prevista uma oficina prática destinada ao mapeamento das chamadas ilhas de calor, áreas urbanas onde as temperaturas tendem a ser mais elevadas em razão de fatores como concentração de construções, pavimentação e menor presença de vegetação.
O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial e capaz de alterar padrões de temperatura e precipitação em diferentes regiões do planeta. Seus efeitos não são iguais em todos os locais nem significam, isoladamente, que determinado evento extremo ocorrerá. No entanto, episódios mais intensos podem modificar as probabilidades de calor, seca ou chuva acima da média, o que torna o monitoramento e o planejamento antecipado instrumentos cada vez mais relevantes para estados e municípios.




