Por:
Marco Juarez Reichert
Mais uma catástrofe climática severa se estabeleceu em território brasileiro, desta feita com inundações batendo recordes no estado do Rio Grande do Sul, não só em volume das chuvas e nível de rios e lagos, mas no número de municípios gaúchos atingidos pelas cheias e mais ainda, no ubíquo sofrimento de uma enorme parcela da população.
Muitos pereceram com as enxurradas, famílias inteiras dizimadas, outros ainda desparecidos, casas, apartamentos, empresas de todos os portes inviabilizadas de operarem, quer pelas águas que adentraram em suas instalações, quer pela falta de energia, ou pela falta dos seus trabalhadores, que perderam tudo e sequer tem como se deslocar ao trabalho, já que sem casas, ficam em abrigos e tampouco as estradas estão ligando as diferentes regiões do estado. Pontes e estradas destruídas, ou soterradas por deslizamentos das encostas dos morros, cujo solo virou uma pasta liquefeita pelas chuvas. Animais em grande número morreram afogados ou foram carregados pelos rios para muito longe de sua origem. Algumas cidades pequenas só constam nos mapas, porque não existem mais. Noutras, bairros inteiros estão virados em destroços, lembrando os efeitos devastadores do Furacão Katrina, nos EUA (2005). Talvez o pior em termos de infraestrutura aconteceu no Aeroporto Internacional Salgado Filho de Porto Alegre, vital para a economia do estado e de relevância para o país. Os danos nem conseguem ser totalmente mensurados. Essa avaliação levará um tempo para estar concluída. Talvez ele nem volte a operar em 2024. Saberemos mais adiante.
Sim, algo extraordinariamente bom aflorou em meio a toda essa desgraça: a solidariedade da população gaúcha e dos demais estados do país. O voluntarismo da população, sem qualquer outro interesse espúrio, merece nosso reconhecimento e gratidão. Não fossem eles, os danos seriam, categoricamente, piores. Voluntários anônimos vieram de todas as partes, inúmeros deles de muito longe, com a determinação e a coragem, com o objetivo de ajudar ao próximo, seus irmãos brasileiros. Eles rebocaram jet-skis, embarcações diversas, dirigiram seus veículos repletos de roupas e víveres, deixaram suas famílias para ajudar nos resgates, na organização e distribuição dessas doações. Incontáveis foram os brasileiros que fizeram donativos. Os voluntários mal se alimentavam e dormiam nesses dias. Dedicação por longas horas, com raros momentos de descanso. Configurou-se aqui a maior ajuda humanitária que se viu na história brasileira. O país todo abraçou os afetados pelas cheias, em grande parte consternada e se compadecendo do sofrimento alheio, externalizando em suas preces o desejo de ver melhores dias para a população irmã. Vieram doações de organizações, do povo, dos empresários, e mesmo do exterior, pois a repercussão foi internacional. O momento de solidariedade superou todas as diferenças pequenas e desprezíveis, entre regiões brasileiras, entre ideologias políticas distintas, entre pobres e ricos, todos imbuídos em ajudar e sentindo a dor dos seus compatriotas desolados. Pelo menos para a maioria dos brasileiros. Claro, há execráveis exceções, que nem vão merecer comentários aqui.
A abordagem acima é sabida de todos, mas tão logo as águas voltarem aos seus níveis normais, vem um período longo de dificuldades financeiras, de habitação e de sobrevivência de centenas de milhares de pessoas. Vamos ter um longo tempo de recuperação do estado. A infraestrutura danificada (rodovias, pontes, aeroporto, diques e estações de bombeamento de água) precisa ser imediatamente reconstruída e aí entram os agentes públicos. As famílias que perderam suas casas precisam ser realocadas e receberem casas dignas para viverem e em locais imunes às cheias. Não adianta oferecer financiamento. É o caso de verbas a fundo perdido, pois como vão financiar algo se não sabem nem onde e nem quando terão empregos novamente, ou se vão empreender mais uma vez, já que seus negócios evaporaram. As esferas públicas (município, estados e união), se quiserem, encontrarão formas de garantir esses recursos. Todos os poderes deveriam renunciar a certos gastos e privilégios e direcionar ao estado que representa um PIB próximo a 6% do produto interno bruto de todo o país. Só a indústria gaúcha abriga mais de 800 mil trabalhadores formais e ela está, em boa parte, sem um norte, a não ser o de suas próprias convicções e de suas entidades de classe. A economia precisa voltar a se movimentar o quanto antes, até para evitar uma desgraça maior ainda na população que vive no RS. O sofrimento mental é algo certo, que atingiu milhões de pessoas e que vai se agravar naqueles diretamente afetados pelos acontecimentos. É imprevisível o dano moral, com a dignidade humana abalada desta parcela de brasileiros sulistas, a exemplo de outras gravíssimas tragédias em diversas regiões do Brasil, nas últimas décadas.
A saúde pública precisará de um investimento urgente para atender ao público sofrido, deprimido e desorientado. É vital para este grande grupo de seres humanos, ter uma expectativa de dias melhores, de que vale a pena seguir vivendo. Apoio de profissionais da saúde, reconstrução de hospitais e melhorias em toda a cadeia é mister, não devendo ser considerado uma despesa, mas um investimento na população para o seu bem-estar social. Não podemos nos permitir que os prazos fiquem apenas em promessas eleitoreiras da classe política. Aliás, que as autoridades da segurança redobrem suas atenções, pois um povo desesperado fica incontrolável e aí um conflito, antes inimaginável, poderá aflorar.
Para finalizar, é bom frisar que aqui no RS, como em qualquer estado, temos muitos habitantes oriundos de outros unidades da federação e do exterior. Nem todos são gaúchos natos, mas todos que aqui vivem foram direta ou indiretamente afetados pelo desastre ambiental em questão e ao mesmo tempo são gratos aos demais brasileiros. O gaúcho se sente comovido pela compaixão, união e benevolência do povo brasileiro. Esse é um novo estereótipo do nosso povo. Ainda há esperança de ver essa nação prosperar, superar suas mazelas e diferenças. Não somos um povo que se acovarda, somos resilientes, aguerridos e o gaúcho é um exemplo disso, como de resto, de todo o país. Obrigado, impávida e colossal nação brasileira. Viva o Brasil!

Marco Juarez Reichert
Bacharel em Administração de Empresas, MBA em Finanças e Governança Corporativa, Pós MBA em Inteligência Empresarial e especialização em Negócios Inteligentes e Quarta Revolução Industrial.
Escritor, palestrante, consultor empresarial e conselheiro de administração certificado.
Foto manchete: Gustavo Mansur/SECOM RS
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