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Uma geração inteira entregue à sorte

Família, escola, religião... Quem se responsabiliza pela formação de nossas crianças?

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Uma geração inteira entregue à sorte
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Por Helio de Carvalho.

Seria leviano afirmar que todos os pais falham na educação de seus filhos, pois existem muitos pais dedicados em fornecer uma educação adequada e saudável para os seus. No entanto, há evidências de que, em muitos casos, os pais podem não estar devidamente empenhados nesta missão.

O psicólogo, escritor e especialista em desenvolvimento humano Rossandro Klinjey disse, em uma entrevista ao UOL, que “as pessoas perderam a capacidade de educar seus filhos. Não sabem dar limites, não conseguem mais passar valores, manter e aprofundar laços afetivos. Isto acarreta grandes prejuízos. Criança não nasce pronta. É um projeto que temos que estar o tempo inteiro investindo para que ela possa desenvolver seu pleno potencial. Quando pais chegam nas escolas, nos consultórios de pediatras e de psicólogos dizendo 'eu não sei mais o que fazer com essa criança' mostra uma geração de pais que se perdeu na tarefa belíssima, mas muito trabalhosa, de educar um ser humano”.

Toma o celular, vai brincar e não enche o saco.

Um exemplo bem atual de falha na educação familiar é o excesso de uso de tecnologia por parte das crianças, sem nenhum controle e vigilância dos adultos responsáveis. As crianças estão cada vez mais dependentes de dispositivos eletrônicos como smartphones, tablets e computadores, e muitos pais permitem que seus filhos passem horas por dia usando esses dispositivos. Isto pode levar a problemas de saúde mental, como ansiedade, depressão e falta de habilidades sociais. Sem contar com as armadilhas de gente mal-intencionada criando desafios que levam muitos jovens à automutilação, conteúdo pornográfico e propostas sexuais, especialmente a menores de idade.

Agora imagine milhares, milhões de crianças vivendo nestas condições? Imagine uma geração inteira crescendo assim?

Este problema vai para além da questão da formação de filhos. Não faz muito tempo, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) lançou um alerta dizendo que a tecnologia atual disponível para telas e mídias em geral oferece benefícios, mas também pode trazer riscos para a saúde de crianças e adolescentes. “A exposição às telas de computadores, celulares e tablets por crianças e adolescentes pode afetar o sono, a atenção, o aprendizado, o sistema hormonal (com risco de obesidade), a regulação do humor (com risco de depressão e ansiedade), o sistema osteoarticular, a audição, a visão. Também há riscos de exposição a grupos de comportamentos de risco e a contatos desconhecidos, com possibilidade de acesso a comportamentos de autoagressão, tentativas de suicídio e crimes de pedofilia e pornografia”, diz o alerta da SBP.

- Pai...

- Espera, o pai tá ocupado, agora.

Outro exemplo de falha que acontece comumente dentro dos lares brasileiros é a falta de tempo dos pais dedicado à educação dos filhos. É fato que muitos trabalham longas horas e podem não ter tempo ou energia para se envolver ativamente na educação de seus filhos. Porém, isto pode resultar em crianças com desempenho escolar insatisfatório ou sem a orientação necessária para desenvolver habilidades importantes, como leitura e escrita. Além disto, muitos pais também não estabelecem limites claros para seus filhos. Eles podem não estabelecer horários para dormir, horários para comer ou limites de tempo para jogos eletrônicos. O que pode resultar em crianças com hábitos pouco saudáveis, falta de disciplina e problemas de comportamento.

Fato é que, não todos, mas muitos pais não fornecem o apoio emocional e afetivo necessário para o desenvolvimento saudável de seus filhos. Eles podem não oferecer palavras de encorajamento, apoio emocional ou simplesmente não ouvir seus filhos quando eles precisam conversar. Alguém duvida que isto pode levar a problemas de autoestima e confiança, o que pode afetar o desenvolvimento social e emocional da criança?

“Os pais estão perdidos. Precisam admitir que se perderam nesse processo. Devem buscar construir competências para se tornar pais educadores. Pai e mãe não são aqueles que geram. Animais geram, mas não educam. Um gato não educa um gato porque é resposta instintiva. Um ser humano não é só pra ser gerado, precisa ser educado. Educar implica a vida toda, estar conversando, dialogando. Hoje duas coisas a gente percebe. Uma é a preguiça. Os pais chegam em casa e dão o celular ao filho para que eles possam ver uma série, assistir ao jornal. A criança tem necessidade grande de contato, de olho no olho, de interação. Basta brincar 15 minutos que ela está satisfeita. Mas muitas vezes nem isto elas têm. Há preguiça ou incompetência dos pais. Quando junta os dois, o caos é bem anunciado”, afirmou Rossandro Klinjey.

Embora haja muitos pais dedicados e envolvidos em fornecer a melhor educação para seus filhos, existem casos – e não são poucos – em que os pais falham em fornecer a orientação, disciplina e apoio emocional necessários para o desenvolvimento saudável de seus filhos.

Educar o filho não está relacionado a status social nem econômico. Isto está relacionado à responsabilidade! É importante que os pais sejam conscientes de sua responsabilidade na educação de seus filhos e estejam dispostos a fazer os ajustes necessários para garantir que os seus recebam a melhor educação possível, não deixando-os à sorte.

A escola vai dar um jeito nessa criança.

Deixar toda a responsabilidade da criação e educação dos filhos para a escola é uma das formas mais comuns de negligência de pais, mães e responsáveis. Embora as escolas sejam um importante meio de aprendizagem e socialização, os pais desempenham um papel crucial na formação dos valores e habilidades de seus filhos. Eles, os pais, são os primeiros e mais importantes modelos de comportamento para as crianças, e devem transmitir valores e ensinar habilidades básicas, como comunicação, respeito, empatia e responsabilidade. Se os pais não se envolvem na educação e criação de seus filhos, as crianças podem ter dificuldades em desenvolver essas habilidades importantes, causando danos, muitas das vezes, irreparáveis à sociedade. Além disto, os pais têm a responsabilidade de criar um ambiente seguro e saudável para seus filhos. O que inclui a criação de rotinas saudáveis, como horários de sono adequados, alimentação equilibrada e atividades físicas regulares. Os pais também devem estar atentos ao desenvolvimento emocional e psicológico de seus filhos, oferecendo apoio emocional e incentivo para que eles se sintam seguros e confiantes em si mesmos.

“Quando a família falha na tarefa de educar o filho joga para a escola essa criança deseducada. Ao não respeitar pai e mãe, a criança não aprende a dar relevância e importância à hierarquia. E não vai respeitar quem vem depois, que são os professores. Os docentes vivem com síndrome de burnout, depressão, crises de ansiedade. Hoje a escola percebeu que não adianta mais acusar os pais que eles estão perdidos ou apenas diagnosticar isto. Entendeu que precisa colaborar. Estamos vendo o preço da incapacidade de educar. E nesse momento da dor, suicídio infantil e juvenil que quase não existiam 20 anos atrás se tornarem uma coisa quase epidêmica globalmente. É quando a dor é muito alta que a gente percebe que tem algo muito errado e é preciso reverter esse quadro”, concluiu o Psicólogo Rossandro Klinjey.

A construção das relações parentais se perdeu. A tarefa de educar emocional e moralmente um filho pode ter contribuição da escola, mas é sobretudo da família e ninguém pode terceirizar isto. Quando os pais deixam a responsabilidade da criação e educação dos filhos exclusivamente para a escola, perdem a oportunidade de ensinar valores e habilidades importantes em casa. E isto pode resultar em crianças com problemas de comportamento, dificuldades de aprendizado e falta de habilidades sociais e emocionais. Daí a importância de os pais se envolverem ativamente na vida de seus filhos, para que eles possam crescer e se desenvolver plenamente.

Qual seria o futuro de uma geração que não recebe educação familiar?

Seriam essas crianças e jovens capazes de desenvolver habilidades sociais, emocionais e cognitivas adequadas para lidar com os desafios do mundo moderno? Como seria a sociedade em que eles viveriam, se não tiverem aprendido valores, normas e comportamentos adequados em casa? Será que eles seriam capazes de estabelecer relacionamentos saudáveis, lidar com conflitos, tomar decisões informadas e contribuir para o desenvolvimento de uma sociedade mais justa e equitativa?

Estas são algumas das questões que surgem ao considerarmos a importância da educação familiar na formação de crianças e jovens.

A religião pode ser uma fonte de valores e princípios éticos para algumas famílias, mas não é a única fonte de educação moral e não pode substituir completamente a educação familiar. Embora algumas religiões possam enfatizar a importância da bondade, compaixão e respeito pelo próximo, na prática, nem sempre é assim. Além disto, a religião não ensina habilidades sociais, emocionais e cognitivas que são necessárias para lidar com os desafios da vida adulta, como a resolução de conflitos, a tomada de decisões e a interação social eficaz.

É importante reafirmar que a educação familiar é uma responsabilidade dos pais ou responsáveis e não pode ser terceirizada para instituições religiosas ou outras instituições. É preciso que os pais reconheçam a importância da educação em casa e se esforcem para transmitir valores e conhecimentos importantes para seus filhos. A escola pode complementar essa educação, mas não pode substitui-la completamente.

É importante destacar que a falta de educação familiar pode ter consequências negativas a longo prazo para o desenvolvimento de crianças e jovens, incluindo dificuldades de adaptação social, problemas de comportamento, baixo desempenho acadêmico e dificuldades emocionais. Por isto, é fundamental que os pais – independentemente da condição social, financeira e cultural – assumam a responsabilidade de educar seus filhos e ofereçam a eles as ferramentas necessárias para enfrentar os desafios da vida de forma saudável e bem-sucedida. O contrário disto se chama: jogar os filhos no mundo à própria sorte.

Se os pais não se comprometem, a escola e a religião não substituem os pais na educação dos filhos, a tecnologia fará este papel?

Embora a tecnologia possa oferecer algumas soluções para os desafios enfrentados por aqueles que crescem sem uma base familiar sólida, ela não pode substituir completamente as habilidades sociais, emocionais e cognitivas que são adquiridas na educação familiar.

A tecnologia pode ser uma ferramenta útil para ajudar as pessoas a se comunicarem e se conectar com os outros, mas não pode ensinar habilidades sociais importantes, como a empatia, a resolução de conflitos e a colaboração. Da mesma forma, a tecnologia não pode substituir a orientação e a educação fornecidas pelos pais e responsáveis, que são fundamentais para ajudar as crianças a desenvolver habilidades e valores importantes para a vida. No entanto, a tecnologia pode oferecer, sim, algumas alternativas para as pessoas que crescem sem uma base familiar sólida. Por exemplo, a educação on-line pode ajudar a preencher algumas lacunas educacionais, e as redes sociais podem oferecer uma maneira de se conectar com outras pessoas e encontrar comunidades de apoio. No entanto, é importante ter em mente que essas soluções não podem substituir completamente a educação familiar e a orientação dos pais ou responsáveis.

Sendo assim, embora a tecnologia possa oferecer algumas soluções para os desafios enfrentados por aqueles que crescem sem uma formação familiar sólida, ela não pode substituir completamente a educação que só se recebe no lar.

E você (pai, mãe ou responsável), vem assumindo este papel com empenho ou engrossou fileiras dos que fazem filhos e os entrega à sorte?

 

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