De
acordo com a pesquisa, Estatísticas de gênero: indicadores sociais das
mulheres no Brasil, divulgada recentemente pelo IBGE,
apenas 37,4% dos cargos corporativos de liderança são ocupados por mulheres e,
segundo o relatório
do Fórum Econômico Mundial, serão necessários 136 anos para atingir a
equidade de gênero.
Considerando
o cenário e modelo de mercado atual, fica nítida a ineficácia de um conceito de
gestão muito centralizador e pouco flexível. Neste sentido, uma das principais
características de um profissional que almeja um cargo de liderança é buscar se
aperfeiçoar.
Partindo
destas estatísticas, o ED conversou com a Diretora Administrativa do Meriti
Previ, Mariana Evers Oliveira Matos, para conhecer sua história sob a ótica das
dificuldades que uma mulher enfrenta para alcançar um cargo elevado e se manter
nele. Nesta conversa, várias questões foram abordadas, como: beleza e inteligência,
mérito e desconfiança, competência e inveja.
O
Jornal Em Destaque também buscou embasamento em profissionais de RH, como Marshal
Raffa, diretor-executivo da Ricardo Xavier Recursos Humanos, e Celso
Bazzola, diretor da Bazz Estratégia em RH. Eles falaram sobre estigmas que
mulheres bonitas sofrem, mesmo no teoricamente objetivo mundo profissional.

As
mulheres bonitas são julgadas pela aparência com relativa frequência. No mundo
corporativo não é diferente, afirma Marshal Raffa. Ele diz ainda que a beleza de
uma candidata pode despertar sentidos de inveja e concorrência em quem estiver
fazendo a seleção.
Beleza
e inteligência
Será
que as pessoas já conseguem enxergar inteligência onde há beleza? De acordo com
Celso Bazzola, o caminho ainda está sendo trilhado.

Infelizmente
o preconceito contra mulheres bonitas ainda existe. Nem sempre as pessoas
conseguem ver que ser bela não exclui ser competente em seu trabalho. Mas é
preciso ressaltar que isto vem diminuindo bastante com ferramentas de
contratação cada vez mais preocupadas em analisar resultados.
Segundo
Marshal, esse estigma pode acompanhar a mulher por um longo período de sua
vida. Seja no processo de seleção ou na sua trajetória dentro de uma empresa.

Mesmo
provando competência em sua função, a promoção de uma mulher bonita acaba
gerando comentários maldosos. E, depois, se ela resolve mudar de emprego, terá de
provar novamente que a beleza é só um complemento. Tem que mostrar competência
em dobro, sempre,
afirma.
Tendo
como base as experiências destes profissionais de RH, vamos às percepções da
nossa entrevistada, que há um ano e meio é a única mulher a ocupar cargo de
direção no Instituto de Previdência de São João de Meriti e tem por
responsabilidade a gestão administrativa.

Começaremos
pedindo a ela que conte um pouco de sua história de vida, até chegar à sua
trajetória profissional.

Eu
nasci em São Bernardo do Campo/SP e vim para o Rio de Janeiro na infância
quando os meus pais se divorciaram e minha mãe decidiu retornar para perto da
família, que é de São João de Meriti. E assim eu fui criada numa casa
reconhecidamente matriarcal, porque, embora houvesse o meu avô como figura masculina,
a força da minha família sempre esteve nas mulheres, e, em alguns contextos,
éramos conhecidas como o Clã das Evers- mãe, avó, tia, uma irmã mais velha e
eu. E foi nessa condição que desde cedo eu aprendi o poder dessa força que
habita no feminino, porque, apesar de serem de gerações que imputavam a força
de uma família e do seu sustento ao homem, essas três mulheres que me criaram
sempre deixaram muito claro para nós no dia-a-dia o seu poder de superação, de
resistência; esse dom feminino de ser ninho, estrutura, alicerce... e eu
importei tudo isto para a vida moderna, para os meus interesses pessoais e de
uma geração que não necessariamente deseja mais se realizar como mãe de família
e na gestação e boa criação de filhos, mas que quer ser profissional de
destaque, gestar bons projetos e criar resultados incríveis, nas mais
diversas áreas.
Administração
Pública


A
chefa

Alguns
integrantes da equipe me chamam de Chefa e eu amo isto neles, porque não o fazem
como demonstração vã da minha autoridade ou puxa-saquismo, ainda que para
toda regra haja uma exceção [risos].
Eles fazem cheios de carinho e reconhecimento do meu respeito e apreço
por eles,
afirmou a Diretora. A Chefa que eu sou hoje foi forjada por cada chefe
que eu tive nesse caminho. Com eles eu aprendi o que eu seria e o que eu
evitaria ser para a equipe que eu viesse a liderar. Lembro-me do primeiro dia
em que cheguei ao Instituto e conheci a minha secretária e eu disse para mim
mesma que não poderia esquecer jamais como é estar no lugar dela, e que seria
para ela a Chefe que eu gostaria de ter. E eu não tenho dúvidas de que foi a
empatia que me permitiu construir com a minha equipe uma relação de
interdependência e confiança, que dá a mim paz e satisfação nos resultados, e a
eles tranquilidade e segurança para se expressarem e desenvolverem
individualmente, concluiu Mariana.
O
que é empoderamento?

É
tomar consciência e apropriar-se do poder que já se tem... Empoderamento, para mim,
não é autoafirmação - embora ela venha a ser necessária ou útil em algum
momento é a liberdade de viver e explorar toda essa nossa natureza, com
segurança e espaço para tal. E essa semente só brota na sociedade se estiver
corretamente plantada e geminada em nós mulheres, exclamou a
Diretora.
Não
são poucos os exemplos que temos nessa luta pela igualdade entre os gêneros e
por esse empoderamento feminino. De acordo com a afirmação de Carolina Bergmann, Técnica em
Assuntos Educacionais do Prodin, as mulheres enfrentam primeiro
uma luta interna pela conquista da autoestima. Porque embora as mulheres, que
fazem frente e dão rosto a essa causa, pareçam esbanjar esse amor e aceitação
própria, isto ainda não se estende à realidade da massa feminina. Nossa
entrevistada também concorda:

Nós
somos comparadas, analisadas, criticadas, difamadas todo o tempo, pela
sociedade e por nós mesmas. Nós mulheres lutamos por uma causa externa que
ainda não vencemos nem internamente. Mas este é um ponto para se tomar
consciência e trabalhar na evolução da causa, afirmou Mariana.
O
preço pago por ser mulher...
Abrimos
esta matéria falando do preconceito bem presente no ambiente corporativo envolvendo
beleza x inteligência. Perguntamos à nossa entrevistada sobre suas percepções e
vivências a respeito.

Essa
questão de ser bela é realmente uma faca de dois gumes porque é bem verdade
que em alguns momentos a beleza pode ajudar a abrir portas. O ser humano
consciente ou inconscientemente gosta de estar cercado do que é belo e
agradável aos olhos, isto faz parte da natureza humana, e não necessariamente
existe algo de errado nisto - quando está equilibrado. Então, por vezes, embora
a beleza não vá e não deva mesmo ser a característica preponderante para a
recepção de uma oportunidade, ela poderá facilitar sim o ganho de uma simpatia
ou uma receptividade inicial que, por sua, vez abra espaço para a demonstração
das características realmente importantes, como conhecimento, desempenho e
competência. Mas, como já bem exposto aqui, o oposto também pode acontecer e a
beleza se tornar uma pedra no caminho profissional, se o poder decisório
recair sobre pessoas eivadas de preconceitos ou ciúmes, o que torna esse
processo uma roleta russa, disse Mariana, e conclui: É muito sensível no dia-a-dia
a necessidade de provar tudo o tempo todo. Nossa caminhada será muito mais
veloz e gloriosa quando, finalmente, não precisarmos mais dedicar energia
provando coisas, e dedicarmos essa mesma energia para nos desenvolvermos ainda
mais.
E
poderíamos acrescentar mais gume à essa faca, se pensarmos no quão
presente é o assédio sexual, ainda hoje.

Esse
é dos cenários mais indigestos para uma mulher no ambiente profissional, na
minha opinião. A cultura da objetivação sexual da mulher é forte a um nível que
beira o absurdo e está, infelizmente, normalizada. Todos os dias mulheres
precisam dar sorrisos amarelos constrangidas por elogios inapropriados,
comentários lascivos e, ainda, têm de ficar felizes que eles sejam apenas brincadeiras,
porque, afinal, existe quadro ainda pior, quando algum tipo de proposta é
insinuada ou alguma concessão é esperada - clara ou implicitamente - por parte
da mulher em troca da sua posição, afirma a Diretora Administrativa do
Meriti Previ.
Parece
que ter jogo de cintura para enfrentar os assédios é requisito quase
curricular para uma mulher e, consequentemente, gera um desgaste e um atraso
inimaginável.

O
assédio é real, constante e insustentável. Este, para mim, deveria ser o
primeiro aspecto a se mudar quando falamos dos desafios que nós mulheres
enfrentamos em ambientes profissionais. O assédio é mais do que agressivo, ele
é enfermo. A beleza feminina precisa ser descriminalizada no ambiente
profissional,
comenta Mariana. E, para fazer justiça à minha história, eu sou grata por
Deus ter colocado também no meu caminho, muitas pessoas maduras neste sentido.
Apesar de ter passado pelo assédio em diversas ocasiões, existiram essas
pessoas fundamentais na minha caminhada que me deram a oportunidade pura e
simplesmente por crédito no que eu era capaz, e foram elas que me garantiram o
ambiente saudável que eu precisava para me desenvolver, e eu desejo do fundo do
meu coração que esta seja a minha realidade em todos os outros desafios
profissionais que enfrente pelo meu caminho; e a realidade de todas as mulheres,
em breve. Espero que não seja um desejo utópico, ingênuo, conclui.

...No
Meriti Previ
Mariana
disse ao ED se sentir muito feliz no Instituto que, apesar de ter um quadro
majoritariamente masculino, não vê qualquer tipo de dificuldade em lidar com
eles no dia-a-dia e exalta o time feminino que a cerca.

Eu
tenho mulheres fantásticas e maduras na minha equipe e morro de orgulho delas.
Elas se apoiam, auxiliam, se desenvolvem e, quando, por ventura, se ventila
algum problema originado nesse tipo de competição e ciúme, a própria maturidade
desse organismo, que é a equipe, suprime a crise. Minhas meninas não deixam
nenhuma faísca se tornar um incêndio. Elas são muito sábias, não acha?, ponderou a
Diretora. Essas mulheres me deram e me dão muita força na minha liderança,
hoje, justamente porque se comportam como todas nós devemos nos comportar
diante da ascensão de outras mulheres. Recebo demonstrações cada dia de
admiração e respeito por parte delas e isto só aumenta o meu desejo de
representá-las cada vez mais e melhor. Elas contam comigo para que o nosso
lugar de fala, de fato, tenha voz, completou.
A
mulher na Direção

Quando
eu assumi o cargo de direção, pude perceber um pouco do que chamam de machismo estrutural e institucionalizado. Nas primeiras
reuniões que participei, minhas falas foram interrompidas em alguns momentos,
numa tentativa até de ajudar - como se por ser mulher eu necessitasse de um
apoio ou proteção extra. Em outros momentos eu vi expressões de perplexidade,
como se uma opinião contundente ou uma voz de autoridade não fosse esperada de
uma mulher jovem. E percebi que, ao menos nesse meu contexto, não
necessariamente havia maldade ou má intenção nessas atitudes. É importante
também tomarmos consciência do traço cultural e educacional que estamos
combatendo ao buscar a igualdade, para que o ativismo não se sobreponha
burramente à paciência e à compreensão que nos trarão às estratégias corretas.
Estamos reeducando uma sociedade, e a educação é justamente um dos talentos
femininos. Eu decidi ganhar o meu espaço na força das virtudes femininas e não
minimizar minha feminilidade e me igualar às atitudes tipicamente masculinas. E
assim foi. Não tardou muito e eu já não sentia nenhuma diferenciação entre a
força da minha palavra e a dos homens, e contava com todo um respeito e consideração
de iguais com a Diretoria. Esse desafio foi vencido... Que venham os próximos,
porque a cada passo de crescimento nós mulheres seguimos, enfrentamos os tais
desafios em dobro. Mas, sabe... se formos inteligentes e otimistas, conseguiremos
tirar prazer e satisfação em um cenário de conquista de espaço, respeito e
reconhecimento,
afirmou a Diretora.
Perguntada
sobre essa guerra dos sexos no ambiente de trabalho, Mariana disse:

Não
gosto do antagonismo que se criou entre feminino e masculino, como se para
mostrar o valor da mulher fosse necessário denegrir a imagem e diminuir a força
do homem. Feminino e masculino são forças igualmente poderosas e complementares
- Yin e Yang, Preto e Branco, Terra e Mar - e eu tenho muito orgulho e sou
grata por cada um dos meus funcionários ou dos meus pares do sexo masculino e
da contribuição dessas características masculinas na operacionalização de um
trabalho. Mas, ainda precisamos que se reconheça que na busca das mesmas
oportunidades e experiências, a balança segue sendo desigual para nós mulheres.

Para
concluir...

As
mulheres precisam sim se amar, se aceitar e se desenvolver individualmente
partindo dessa base de generosidade consigo mesmas, mas essa saúde emocional se
reflete sobretudo no modo como as mulheres lidam com as outras mulheres. Uma
mulher curada das suas emoções e consciente do seu valor não cai nessa cama de
gato que é a competição e o ciúme entre a classe feminina. E, convenhamos, na
maioria das vezes, é exatamente o que acontece. Isto denigre a nossa imagem e
atrasa demais a conquista do nosso espaço. Quantas vezes já se escutou que
juntar muitas mulheres em um ambiente de trabalho causa problemas?! Se eu, como
mulher, sei da minha capacidade individual e profissional, por que motivo eu
vou levantar suspeitas sobre as oportunidades alheias? Se eu sei que sou
íntegra e mereço respeito, por isto, por que vou desmerecer a trajetória de
outra mulher? E há um cuidado que temos de tomar aqui: Se eu acho que uma
mulher só chegou a algum lugar, porque é jovem, bonita, apadrinhada, abastada
ou porque deva ter utilizado de algum subterfúgio que não a competência, eu
estou declarando que eu acredito que uma mulher, ou que eu mesma, só possa
alcançar por meios dessas coisas, e então a nossa luta e busca serão
absolutamente invalidadas, porque estou tentando convencer à sociedade com
palavras diversas às minhas ações. Cada vez que vejo uma mulher em um alto
cargo, eu enxergo como mais uma conquista alcançada por todas nós. Cada mulher
que foi mais longe do que eu já consegui chegar, aplainou o caminho, derrubou
mais obstáculos, abriu precedentes e tenho prazer em cada uma delas como
símbolo feminino. Amo quando vou a Congressos, Cursos e Eventos e me deparo com
tantas mulheres que já ocupam o cargo máximo dos Institutos de Previdência, que
é o ambiente profissional que estou inserida hoje e é extremamente técnico,
sério e exigente. Estamos começando a ser reconhecidas! Eu me regozijo em cada presidente
mulher de RPPS, cada Secretária Municipal, cada Vereadora do nosso município,
cada Empreendedora de sucesso, cada mulher que ousou e se expôs, vencendo por
todas nós,
finalizou a nossa entrevistada.
Mariana
Evers é uma das muitas ainda que não o suficiente mulheres que trilham uma
carreira sucesso, com muita coragem e determinação. A escolha do Jornal Em
Destaque por trazer sua história de vida e suas percepções do mundo feminino
no mundo corporativo teve por objetivo não só evidenciar esta mulher, em
si, mas, sobretudo, conceder e legitimar esse lugar de fala, a fim de encorajar
todas as mulheres leitoras e seguidoras do ED, na sua luta diária pelo seu
merecido e legítimo espaço na sociedade, por direito.
__________________________________________
Com premiações em nível nacional e internacional, o EM
DESTAQUE reforça o seu compromisso com o bom jornalismo, produzindo diariamente
conteúdo de qualidade, com responsabilidade e que você pode confiar.
Siga o site e as redes sociais do jornal que virou fonte de
notícias do Google
News e que há dois anos disponibiliza conteúdo nos principais tocadores de podcasts:
ED, o jornal local sem fronteiras para a notícia!




