A
inclusão é uma das ambições deste ano do festival Rock in Rio Lisboa. Logo no
concerto de abertura, dos portugueses Xutos & Pontapés, a organização
estreou em Portugal a utilização de intérpretes de língua gestual para levar as
letras das músicas até às pessoas surdas.
Os
concertos dos dois palcos principais do Rock in Rio Lisboa, que acontece no
Parque da Bela Vista, têm interpretação em Língua Gestual Portuguesa (LGP),
algo "histórico" para as pessoas surdas, e desejável "que se
repita" noutros festivais.
Sofia
Figueiredo, que durante os tempos de pandemia surgiu várias vezes nos ecrãs de
televisão durante as conferências de imprensa da Direção-Geral da Saúde e do
Governo, está presente no Rock in Rio Lisboa, à semelhança de outros
intérpretes de LGP, fazendo chegar às pessoas surdas os concertos do Palco
Mundo e do Music Valley.
Para
ela, "é um privilégio muito grande" estar num festival com a dimensão
do Rock in Rio Lisboa. Para as pessoas surdas, "é histórico", visto
que "é a primeira vez que se faz", sublinhou em declarações.
O
trabalho visível de Sofia e dos colegas aconteceu no sábado (18), e vai
acontecer hoje e nos dias 25 e 26 deste mês, mas começou há algum tempo.

O
nosso trabalho passa por ter acesso ao alinhamento e ver muitos vídeos das
bandas e perceber a forma de elas atuarem, a forma de elas serem. Além do
momento, da letra que vamos ouvir, é muito importante conhecermos a banda. E
esse é o trabalho que fazemos de preparação", explicou.
Isto
porque um intérprete de LPG passa "tudo" a quem não ouve. A letra,
"mas também ritmo e melodia".
Para
o trabalho de preparação, é importante para os intérpretes terem
antecipadamente acesso aos alinhamentos dos concertos, mas nem sempre isso
aconteceu.

Houve
artistas internacionais que deram o alinhamento e os portugueses não deram", lamentou,
salientando que os artistas "têm que olhar para o trabalho do
intérprete não [apenas] como alguém que ouve e que faz. Temos de
ter acesso a toda a preparação, todas as letras, todas as músicas, porque
estamos todos a trabalhar em conjunto para a inclusão", afirmou.
Em
frente aos palcos há espaços reservados para as pessoas surdas, perto das
colunas, para que possam sentir a vibração da música. É junto a esses espaços
que estão os intérpretes, embora não seja o lugar mais adequado.

O
ideal é estarmos no palco ou numa plataforma junto ao palco. Vamos estar num
terreno que não é inclinado, ao mesmo nível das pessoas surdas, e isso vai
fazer com que elas não vejam tão bem a nossa tradução", disse Sofia
Figueiredo.
Idealmente,
os intérpretes estariam "mais elevados", para que as pessoas os
possam ver, mas também aos artistas.

Temos
que garantir que as pessoas surdas consigam olhar para nós, visionar tudo o que
estamos a interpretar em LGP, mas também possam olhar para o artista, para toda
a atuação",
referiu.
Ainda
que sem as condições ideais, Sofia Figueiredo espera que a interpretação de LGP
em festivais de música "se repita e venham cada vez mais".

A
inclusão é isto mesmo: estarmos todos no mesmo espaço em partilha", salientou.
A
inclusão é algo em que a organização do Rock in Rio Lisboa, segundo a
coordenadora de sustentabilidade do festival, Dora Palma, está este ano "trabalhando
muito mais", com o apoio da Santa Casa da Misericórdia, que garante, por
exemplo, a interpretação em LPG através dos serviços especializados da Hands
Voice.
Além
da interpretação em LGP "há audiodescrição espalhada por vários sítios do
evento, através de um qr code, um mapa tátil, é possível trazer cães guia"
e "há duas plataformas, uma no Palco Mundo e outra no Music Valley, para
pessoas com mobilidade reduzida, seja ela temporária ou permanente".
Nas
duas plataformas há também audiodescrição do que se vai passando e do que está
a acontecer em palco, à qual as pessoas cegas têm acesso através de um pequeno
equipamento de áudio disponível nos espaços.
Como
o Parque da Bela Vista "é um desafio", a pensar em quem se desloca em
cadeiras de rodas, há também "umas motos que se acoplam às cadeiras de
rodas, para a pessoa ter mais independência e mobilidade dentro da 'cidade do
rock'".

O
que queremos é criar as condições para que mais pessoas possam usufruir e para
que o Rock in Rio seja um evento para todos", referiu Dora Palma.
Além
disso, a organização está "trabalhando com associações na integração de
jovens com deficiências na equipa de 'catering'".

A
nossa visão de inclusão não é apenas para o nosso público, mas também para quem
trabalha conosco",
salientou Dora Palma.
Quem
quiser aceder aos serviços disponibilizados no festival tem apenas que
"aparecer, dirigir-se às plataformas, aos pontos de informação ou à equipa
da Santa Casa em permanência na entrada do recinto".
O
Rock in Rio Lisboa começou no sábado com concertos de Xutos & Pontapés,
Liam Gallagher, The National e Muse, que substituíram há algumas semanas os Foo
Fighters.
O festival
vai até o domingo da semana que vem. Esta noite, se apresentam os Black Eyed
Peas, e fechando no próximo fim de semana com concertos de Duran Duran, A-Ha,
UB40, Bush, António Zambujo, Ney Matogrosso e Post Malone.
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