Foto: Dr.
Jorge Jaber
Dr.
Jorge Jaber é Médico Psiquiatra, formado em Medicina pela Universidade
do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), é Professor de Psiquiatria da PUC-Rio,
possui MBA em Medicina pela Fundação Getúlio Vargas, é Diretor-Técnico
da Clínica Jorge Jaber, é Membro Fundador e Associado da International
Society of Addiction Medicine, Membro do Conselho Administrativo da Association
of Psychiatric Administrators AAP, associado da New York
Academy Of Sciences, associado da American Psychiatric Associations
APA, associado da World Federation Against Drugs WFAD,
Fundador da banda carnavalesca Alegria Sem Ressaca e é um dos fomentadores da
benfeitoria da Academia Nacional de Medicina.
Em
meio a um contexto de inquietações, ansiedades, depressão e de tantas
incertezas, que eu entrevistei com exclusividade, o Dr. Jorge Jaber, que faz
várias análises e esclarecimentos sobre o presente e o futuro no tocante a
saúde mental.
Depressão,
síndrome do pânico e os transtornos de ansiedade em geral têm acometido mais
pessoas na pandemia?
Dr.
Jorge Jaber -
Todo ser humano carrega um conteúdo genético que determina sua reação aos
estímulos externos, como a predisposição a certas doenças e a resistência a
outras. A pandemia trouxe situações muito prejudiciais à saúde mental:
isolamento, quebra da rotina, medo da morte e insegurança econômica, por
exemplo. Um cenário propício para o surgimento de problemas psíquicos em
pessoas geneticamente suscetíveis e para o agravamento dos casos preexistentes.
- A
depressão e transtornos de ansiedade e pânico, que com muita frequência têm
diagnóstico interligado, se enquadram nesse contexto, com um agravante: o
excesso de informações falsas ou desencontradas que recebemos a todo o momento.
As fake news dificultam a busca por dados corretos, agravando a sensação de
insegurança. Neste panorama, é natural que os transtornos mentais tenham
aumentado.
Quais os
sintomas mais comuns de depressão e síndrome do pânico?
Dr. Jorge Jaber - A
depressão geralmente provoca alterações do sono e da alimentação, com perda ou
ganho significativo de peso, de memória, desinteresse pelas atividades
cotidianas e cuidados pessoais, irritabilidade. As pessoas deprimidas costumam
demonstrar uma espécie de tristeza, mas muitas vezes mascaram esse sentimento
com falas excessivas e tentativas de criar assuntos divertidos. São disfarces
para o sofrimento.
-
Há também uma sensação de fadiga, falta de ânimo, o que gera críticas e
comentários como você é jovem, deveria reagir. Isso, além de inútil,
fragiliza ainda mais o paciente. É como se, diante de alguém com a perna
quebrada, disséssemos fique tranquilo, isso é besteira. A questão é física, o
cansaço é real. Vale lembrar que a depressão atinge mais mulheres do que homens
- quase o dobro de casos.
-
O ataque e a síndrome do pânico se inserem nos quadros de ansiedade, e também
afetam mais as mulheres, numa proporção de quatro por um. É preciso estabelecer
a diferença entre os dois: o primeiro surge com um medo intenso de algo
inexistente ou injustificado, gerando uma sensação de morte iminente, tremores
intensos, palpitações e falta de ar a dispneia, em linguagem médica. Há
também relatos de tontura, visão turva, dormência nos lábios e dor no peito,
com alteração no batimento cardíaco neste caso, é fundamental fazer um exame
rapidamente para afastar a hipótese de infarto do miocárdio.
-
A síndrome ocorre quando os ataques se tornam recorrentes. A perspectiva ou o
simples medo de novos episódios leva o paciente a um quadro de preocupação
excessiva e mudança de comportamento para tentar que eles se repitam.
-
Normalmente, os sintomas ganham intensidade nos primeiros 15 minutos, numa
escalada rápida, e depois disso começam a diminuir. Em casos muito raros, podem
durar uma hora. Eu costumo dizer aos alunos que, diante de uma pessoa nessa
situação, o ideal é emprestar o ouvido. Vinte minutos de conversa, desviando
aos poucos do assunto, ajudam muito. Não é hora de dizer calma, se controle,
como não se diz pare de sangrar para alguém com hemorragia. Não minimize o
problema. Como na depressão, os efeitos são reais, e provocam sofrimento
intenso, além de uma sensação de esgotamento depois de superada a crise. Deixe
a pessoa descansar.
Como se
prevenir contra os problemas emocionais em um momento tão delicado?
Dr. Jorge Jaber - A
sabedoria popular nos dá muitas respostas. Ela diz, por exemplo, que uma
atividade prazerosa ajuda a superar dores ou sofrimentos. Isto é confirmado
pela Ciência: a sensação de bem estar produz impulsos positivos no cérebro e
isso fortalece nosso sistema imunológico. Aplicando esse conhecimento ao
momento atual, podemos combater esses problemas com um sistema de prevenção em
três etapas. A primeira é criar estratégias pessoais de bem estar: leitura,
música, uma caminhada ao ar livre sempre com máscara, álcool gel e
distanciamento , meditação, enfim, tudo que nos dá prazer. Se isso não for
suficiente, converse com um amigo, divida o problema com uma pessoa de
confiança. Se ainda assim a sensação de mal estar prosseguir, busque ajuda
profissional, como um psicólogo, ou, em casos mais graves, um médico. Com uma
base de apoio estabelecida, há mais chance de superar esse momento difícil.
Quais os
principais desafios da psiquiatria neste momento tão delicado?
Dr. Jorge Jaber - O maior desafio é aumentar a oferta de
serviços gratuitos e eficientes de saúde mental, através do SUS. Há uma grande
carência nessa área, e a demanda só cresce. A depressão, por exemplo, atinge
cerca de 6% dos brasileiros. Este e outros transtornos mentais provocam grande
sofrimento e até prejuízos econômicos, com o afastamento de muitos
profissionais de seus postos de trabalho.
A
psiquiatria e a neurociência evoluíram muito a partir dos estudos de Philippe
Pinel e, mais tarde, Sigmund Freud. O tratamento baseado unicamente no
isolamento do paciente é cada vez mais raro. Houve uma humanização no
enfrentamento dos problemas psíquicos, e hoje sabemos que, medicadas e
tratadas, essas pessoas podem levar uma vida normal. Se conseguirmos oferecer
esse atendimento, incluiremos um grande número de brasileiros no tecido social,
com benefícios emocionais e até econômicos para todos.
Os
transtornos de ansiedade e depressão só podem ser tratados através de
medicamentos ou há meios alternativos?
Dr. Jorge Jaber - Na maioria dos casos, o remédio não é a
primeira opção. A medicina, até por uma questão de bom senso, utiliza os
recursos de maneira gradativa. A aplicação de qualquer tratamento, portanto,
depende da gravidade do problema. A primeira fase de qualquer tratamento são os
cuidados básicos: repouso, alimentação, limpeza corporal e mesmo uma conversa
sobre o problema. A chamada higiene mental, que evita uma piora no quadro. Se
os sintomas permanecem, é hora da ajuda profissional, e mesmo nesse momento é preciso
uma escala: os psicólogos, com recursos como: a terapia verbal ou mesmo
corporal arteterapia, yoga, meditação e outros atuam de forma menos
invasiva, com excelentes resultados. Quando essas medidas iniciais não surtem
efeito, recorre-se à psiquiatria, que introduz os remédios necessários, na dose
adequada. É sempre bom destacar que há medicamentos de ótima qualidade e,
quando administrados corretamente, muito eficientes e seguros.
A vida na
pandemia irá gerar problemas emocionais nas pessoas? Quais os problemas mais
comuns?
Dr. Jorge
Jaber - Toda
situação extrema, que coloque em risco nossa vida, saúde e rotinas
estabelecidas, pode provocar problemas físicos e emocionais. É o caso da
pandemia. Temos visto um aumento nos casos de transtornos psíquicos, e as
pesquisas vêm constatando isso a nível mundial. É um cenário preocupante, pois
além dos próprios efeitos dessas doenças, elas são gatilhos potenciais para o
suicídio.
Os medicamentos ansiolíticos geram algum dano para a memória ou no tocante
a sexualidade do paciente a curto, médio e ou longo prazo?
Dr.
Jorge Jaber - Todo medicamento é uma droga, e deve ser receitado de
maneira cuidadosa. Os benzodiazepínicos podem afetar a memória, enquanto os
ansiolíticos, que são relaxantes musculares, podem levar à diminuição da
libido. Mas são efeitos passageiros. Um fator preocupante em relação aos
remédios é sua oferta excessiva. Muitos médicos, sabendo que o paciente pode
ter dificuldade para conseguir uma nova consulta, passam várias receitas de uma
só vez, provocando uma super oferta de medicamentos na sociedade, até mesmo
para pessoas que não precisam deles. Isto é outro gatilho para tentativas de
suicídio. Quais são as medicações que a rigor podem gerar determinado dano?
Toda substância química, como os remédios, pode se tornar um veneno, se
ingerida em excesso ou indevidamente. A psiquiatria, através da
psicofarmacologia, se preocupa com o comportamento dos remédios no organismo. O
grande temor do psiquiatra é causar a chamada iatrogenia, ou seja, levar o
paciente a adoecer pelo tratamento. Desse modo, eles costumam ser muito
cuidadosos com esta questão.
Ainda há
muito preconceito e resistência das pessoas em buscar a ajuda de um psiquiatra?
Dr. Jorge Jaber - O preconceito é fruto muito mais do medo do
que da soberba. Temos medo do que projetamos como inferior no outro. Por muito
tempo, a humanidade temeu o comportamento destoante representado pelos
portadores do mal estar mental, e é natural que esse temor e esse preconceito
persistam. A maneira de combater isso é desmistificando o transtorno psíquico,
através da informação transmitida de forma clara e acessível. A imprensa tem
papel fundamental nesse processo.
Qual a
recomendação que o senhor faz as pessoas que se encontram desoladas em meio a
este momento tão crítico?
Dr. Jorge Jaber - Um cenário atípico como o da pandemia, de isolamento forçado, pode
alterar profundamente o nosso comportamento. É recomendável, em primeiro lugar,
manter a regularidade de algumas atividades, como o contato diário com os
amigos. Bater papo. Uma boa conversa estimula a liberação de
neurotransmissores, que combatem a depressão e a ansiedade.
Quais são
os sintomas mais comuns de ansiedade e como a pessoa pode identifica-los?
Dr. Jorge Jaber - Em doses normais, a ansiedade é benéfica,
uma espécie de preparação para situações desafiadoras. Em excesso, se torna um
problema e provoca alterações de comportamento. Os principais sintomas são
semelhantes aos dos transtornos do pânico: alterações de sono e apetite, medos
irracionais, tensão muscular, receio de falar em público, tremores, cansaço,
náuseas e até arritmia cardíaca.
Como se
deu a trajetória profissional do senhor?
Dr. Jorge Jaber - Meu interesse pela Medicina surgiu
ainda na infância. Fui uma criança com alguns problemas graves de saúde, e
recebi um atendimento muito bom, muito cuidadoso, por parte dos médicos e
enfermeiros. Tudo pelo sistema público, gratuito. Isso me tocou profundamente.
O foco na dependência química surgiu com a morte de um grande amigo, por
overdose. Isso era relativamente comum, não havia tanto conhecimento sobre as
drogas e seus riscos. Esse caso, e outros que acompanhei depois, me despertaram
a vontade de ajudar essas pessoas e me levaram ao curso de Medicina da
Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), onde me graduei. Fiz
especialização em Psiquiatria e, mais tarde, pós-graduação em Dependência
Química na Universidade de Harvard.
- Fundei
a Clínica Jorge Jaber o nome é uma homenagem a meu pai há quase 40 anos,
para tratamento e prevenção dos transtornos mentais e dependência química, que
muitas vezes vêm associados. A Clínica também desenvolve trabalhos na área de
educação, sendo parte da Escola Médica de Pós-Graduação em Psiquiatria da
PUC-Rio, da qual sou professor. Temos também nosso próprio Centro de Estudos,
promovendo cursos e desenvolvendo pesquisas nestas áreas.
Há algum
site ou contato com o qual as pessoas podem entrar em contato?
Dr.
Jorge Jaber - Os CAPS Centros de Atenção Psicossocial oferecem
auxílio gratuito a pessoas com sofrimento ou transtorno mental. Organizações
como o Centro de Valorização da Vida. Clique aqui também prestam um serviço
valioso. Há muita informação disponível na internet, mas recomendo, mais uma
vez, a busca por fontes confiáveis. Informações distorcidas ou mesmo mentirosas
podem provocar ou agravar problemas de saúde.
Instagram: @joaocostaooficial




