A campanha que ganhou o país via redes sociais, na época do Carnaval, “Depois do não, tudo é assédio”, parece ter perdido força a ponto de não evoluir para o “Depois do não, tudo é estupro”. Isto se nota no caso de repercussão internacional envolvendo o jogador Neymar Jr e a estudante de design de interiores e modelo Najila. Obviamente, a verdade sobre os fatos cabe aos investigadores; mas, para ser sincero, ao que parece, a verdade pouco importa... o que vale mesmo é o julgamento das pessoas, baseado nos fragmentos editados e publicados na mídia. Aliás, ela já foi julgada e sentenciada: “é vagabunda, queria dar um golpe no solteirão milionário e famoso, não representa as mulheres e deve pagar pelo que fez”.
Apesar
de a jovem “já ter sido julgada”, não me custa considerar algumas curiosidades
a respeito.
Oficialmente, no Brasil, ocorrem 50 mil registros de estupros por ano, dado que o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) estima corresponder a apenas 10% do número real, já que pelo menos 450 mil meninas e mulheres violentadas não dão queixa à polícia, por razões que todos conhecemos. E se você acha que as vítimas são atacadas na calada da noite, em becos escuros e ruas desertas, está equivocado. Há estimativas de que até 80% destes crimes sejam cometidos no recesso do lar e os autores não são psicopatas que fugiram do hospício, mas homens comuns, vizinhos ou amigos que abusam da confiança da família, padrastos, tios, avós e até o próprio pai.
A fama do convívio liberal do homem brasileiro com as mulheres é indevida. A liberdade de andarem com biquínis mínimos nas praias ou seminuas nos desfiles de Carnaval, fortalece este mito. A realidade é outra: somos um povo machista que trata as mulheres como seres inferiores. Consideramos que o homem tem o direito de dominá-las, ditar-lhes obrigações, comportamentos e regras sociais, e puni-las quando ousarem decidir por conta própria. E não é pequeno o número de mulheres que rechaçam as mulheres que dizem, “eu vou ‘dar’ para ele” ou “não quero romance, eu só quero sexo”.
Ainda, segundo o Ipea 24% dos homens acha que “merecem ser atacadas as mulheres que mostram o corpo”. Ou, na pesquisa do Datafolha: 42% dos homens considera que “mulheres que se dão ao respeito não são atacadas”.
Não se trata de simples insensibilidade diante do sofrimento alheio, mas um deboche descarado desses boçais para ridicularizar as tragédias vividas por milhares de crianças, adolescentes e mulheres adultas violentadas todos os dias, pelos quatro cantos do país.
A Cartilha do Sexo, segundo o machismo:
“Depois do não, tudo é sim!”
1- Se a mulher quer transar, então ela está obrigada a se submeter às condições que o homem estabeleça.
2- Se aceitar ir ao motel – ou hotel em Paris – vai ter de suportar dor e porrada; afinal, só quem pode sentir prazer e satisfazer seus desejos é o homem.
3- Quem decide se vai rolar sexo seguro ou não é o homem.
4- Quando a mulher diz não, quer dizer que ela está gostando, mas não quer admitir.
5- A mulher que passou a noite com um homem e se sujeitou – ainda que forçosamente – a tudo que ele fez e depois dá parte na polícia dizendo que foi estuprada, é uma vadia interesseira.
No site do Dr. Drauzio Varella, falando sobre “A Cultura do estupro”, o médico escreve: “O impacto do estupro sofrido em casa ou fora dela tem consequências físicas e psicológicas terríveis e duradouras. O estuprador pratica um crime hediondo que não merece condescendência e exige punição exemplar. Uma sociedade que cala diante de tamanha violência é negligente e covarde”.
Para concluir, me preocupa, também, observar a tendência da imprensa brasileira de proteger gente famosa e rica, em casos assim. Lembrei-me do caso do ex médico das estrelas e papa da reprodução humana, Roger Abdelmassih, cuja imprensa massacrou as vítimas que denunciaram estupros cometidos por ele. Mais tarde, ele foi condenado a 181 anos de prisão, por estuprar suas pacientes. Mais recentemente, foi o João de Deus – ambos estão fora da cadeia!