Em
sua segunda edição, o FIMA – Festival Interativo de Música e Arquitetura
convida o público carioca a viver mais uma experiência imersiva que une música
e arquitetura, agora em outro importante monumento arquitetônico da cidade.
Após uma estreia estonteante em dezembro último no Palácio Petit Trianon, na
Academia Brasileira de Letras – em janeiro, o festival aportou em Belém, no
Palácio Lauro Sodré, Museu do Estado do Pará (MEP) – o projeto, desta vez, irá
celebrar os 458 da fundação da cidade do Rio (comemorados no dia 1 de março),
reunindo na semana do seu aniversário, dia 5 de março, domingo, no Palácio do
Catete (Museu da República), a soprano Daniella Carvalho, o violinista Daniel
Guedes e a pianista Priscila Bomfim. Além do Rio de Janeiro e Belém, o
FIMA estará presente também nos estados do Maranhão e Minas Gerais com
historiadores da arte e arquitetos abrindo caminhos para que músicos
brasileiros consagrados possam apresentar obras musicais que dialoguem
com a arquitetura, a arte decorativa e a história destes icônicos
edifícios, que representam alguns dos mais
importantes patrimônios materiais do nosso país. No dia 18 de março,
celebrando os 180 anos de Petrópolis e os 80 anos do Museu Imperial, o Duo
Santoro se apresentará no Palácio Imperial. Com patrocínio do Instituto
Cultural Vale por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, todas as
apresentações do FIMA têm entrada gratuita.
No
dia 5 de março, os cariocas terão a oportunidade de conhecer um pouco mais
sobre este icônico palácio, inicialmente projetado para abrigar um dos homens
mais ricos do Brasil, Antônio Clemente Pinto. Fazendeiro, comerciante de café,
banqueiro e industrial, se tornou Barão de Nova Friburgo em 1854 e quatro anos
depois iniciou a construção do Palácio Nova Friburgo, futuro Palácio do Catete,
com projeto do arquiteto alemão Carl Friedrich Gustav Waehneld. Para guiar o
público nesta jornada por este edifício - que de 1896 até 1960 foi a sede da
Presidência da República do Brasil – estará presente Mário de Souza Chagas,
museólogo e diretor do Museu da República.
Programa.
O
concerto começa celebrando o jardim realizado, no tempo do Barão, pelo paisagista
francês Auguste Marie François Glaziou e remodelado para a sua ocupação pela
sede do Poder Executivo Nacional por seu discípulo Paul Villon. Os movimentos Le
jet d'eau e Recueillement da obra "Cinco Poemas de Baudelaire", de
Claude Debussy, e As Ninféias do ciclo "Os Olhos de quem vê",
de Pablo Castellar, irão dialogar com o jardim, seus pequenos lagos e o belo
chafariz que representa o Nascimento de Vênus realizado na França pela Fundição
Val D´Osne.
Em
seguida, o programa chega a Heitor Villa-Lobos, compositor que durante o regime
de Getúlio Vargas implementou um programa de educação musical nas escolas.
Neste momento, é lembrado o complexo contexto sociocultural brasileiro do
início do século XX, no qual a ideia de modernidade e a invenção da nação se
misturavam. Na obra "Suite Para Canto e Violino", expressa-se a
personalidade musical singular do compositor que ligado às experimentações traz
uma visão musical particular do Brasil. No terceiro e último movimento, Sertaneja,
as onomatopeias aparecem como recursos musicais para reforçar o ambiente
rural/tradicional, seja com o som da rabeca, de danças sertanejas, do galope da
boiada ou de tiros de espingarda. Tiros que talvez ecoem o disparo desferido
por Getúlio contra o próprio peito.
Para
celebrar o Salão Mourisco, com sua decoração inspirada na arte islâmica, o trio
irá apresentar Sheherazade, de Rimsky-Korsakov, que conta a história da
lendária rainha persa que fascinou e ganhou o eterno amor do Rei Shariar ao
narrar fantásticas histórias por mil e uma noites. Já no Salão de Banquetes,
também utilizado por Getúlio Vargas como um espaço para suas reuniões
ministeriais, destacam-se no teto estuques com frutos e nos arcos pinturas de
naturezas mortas, do italiano Domenichino. Momento em que o programa
busca refletir a beleza vegetal e o estilo barroco através da ária Ombra mai fu
(Nunca houve uma sombra), da ópera Xerxes.
Para
dialogar com cenas mitológicas que encontramos no primeiro andar do palácio e
que copiam os afrescos pintados pelo renascentista italiano Rafael (1483-1520)
na Villa Farnesina e a cópia em metal da escultura Afrodite de Cápua, que se
encontra no Museu Nacional de Nápoles, segue o lamento de Dido, When I am laid
in earth (Quando eu descer à terra), de Dido e Enéias, ópera de Henry Purcell
que retrata o amor da rainha de Cartago, Dido, pelo herói troiano Eneias. Na
Ilíada de Homero, Eneias é o guerreiro favorito de Apolo, o que nos permite
também com essa música fazer uma alusão à Troia, representada nas cenas da vida
de Apolo que encontramos no friso do Salão Nobre.
Subindo
para o segundo andar, observam-se os vitrais de sua galeria que representam
musas e outras figuras mitológicas, trazendo a ária cantada pela Ninfa aquática
"Rusalka", que dá nome a ópera Antonín Dvořak, intitulada A Lua. Em
seguida, uma celebração ao Salão Veneziano, local onde se realizavam as
apresentações musicais deste palácio. Seu nome decorre do estilo do mobiliário,
com móveis pesados e ricamente decorados. Foi neste espaço que ocorreu
o polêmico sarau com músicas da compositora e maestrina Chiquinha Gonzaga,
promovido pela primeira-dama do presidente Hermes da Fonseca, D. Nair de
Teffé. Nele foi apresentada a obra Corta-Jaca, que escandalizou a
sociedade da época.
O
concerto chega ao fim com Ich bin der Welt abhanden gekommen, de Gustav
Mahler, novamente lembrando Getúlio Vargas com esta obra que evoca a paz
alcançada pelo fim de uma vida em meio à turbulência do mundo. Da mesma forma
vemos isso refletido nas palavras perpetuadas ao fim da carta testamento
Getúlio, "...Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho
da eternidade e saio da vida para entrar na história". Na música vemos
os aspectos mais importantes da existência do autor: seu céu, sua vida e sua
canção. Um isolamento e uma desolação que se transformam em paixão quando o
poeta se declara morto para o mundo.
PROGRAMA
Daniela
Carvalho, soprano
Daniel
Guedes, violino
Priscila
Bonfim, piano
Palestrante:
Mário de Souza Chagas
CLAUDE
DEBUSSY
Cinco
Poemas de Baudelaire
III.
O repuxo (Le jet d'eau),
IV.
Recolhimento (Recueillement)
Composição:
1887-89
Duração:
10 minutos
PABLO
CASTELLAR
Nos
Olhos de Quem Vê
I.
As Ninfeias
HEITOR
VILLA-LOBOS
Suite
para Canto e Violino
I.A
Menina e a Canção
II.Quero
ser Alegre
III.Sertaneja
Composição:1923
Duração:12
minutos
RIMSKY-KORSAKOV
Sherezade
(Arr. Fritz Kreisler)
Composição:1923
Duração:
6 minutos
ANTONÍN
DVOŘÁK
Da
ópera Rusalka
Ária "A
Lua"
Composição:
1900
Duração:
6 minutos
GEORGE
FRIEDRICH HANDEL
Da
ópera Xerxes
Ária
"Ombra mai fu" (Nunca houve uma sombra)
Composição:
1738
Duração:
3 minutos
HENRY
PURCELL
Da
ópera Dido e Enéas
Ária
"Lamento da Dido" When I am laid in earth (“Quando eu descer à
terra”)
Composição:
1689
Duração:
4 minutos
CHIQUINHA
GONZAGA
Corta-Jaca
Composição:
1897
Duração:
6 minutos
GUSTAV
MAHLER
Ich
bin der Welt abhanden gekommen
Composição:
1821
Duração:
6 minutos
O concerto acontece no domingo (5), às 16h no Museu da República – Palácio do
Catete, que fica à Rua do Catete, 153, Catete – Rio de Janeiro.
Entrada
Franca.
Classificação
Livre.
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