EMPODERAMENTO FEMININO: Entrevista com Mariana Evers, única mulher a ocupar cargo de direção no Meriti Previ





26/08/2022 14:15 ( Atualizado em 30/08/2022 11:12) | São João de Meriti | Da Redação |

Helio de Carvalho



De acordo com a pesquisa, “Estatísticas de gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil”, divulgada recentemente pelo IBGE, apenas 37,4% dos cargos corporativos de liderança são ocupados por mulheres e, segundo o relatório do Fórum Econômico Mundial, serão necessários 136 anos para atingir a equidade de gênero. 

 

Considerando o cenário e modelo de mercado atual, fica nítida a ineficácia de um conceito de gestão muito centralizador e pouco flexível. Neste sentido, uma das principais características de um profissional que almeja um cargo de liderança é buscar se aperfeiçoar.

 

Partindo destas estatísticas, o ED conversou com a Diretora Administrativa do Meriti Previ, Mariana Evers Oliveira Matos, para conhecer sua história sob a ótica das dificuldades que uma mulher enfrenta para alcançar um cargo elevado e se manter nele. Nesta conversa, várias questões foram abordadas, como: beleza e inteligência, mérito e desconfiança, competência e inveja.

 

O Jornal Em Destaque também buscou embasamento em profissionais de RH, como Marshal Raffa, diretor-executivo da Ricardo Xavier Recursos Humanos, e Celso Bazzola, diretor da Bazz Estratégia em RH. Eles falaram sobre estigmas que mulheres bonitas sofrem, mesmo no teoricamente objetivo mundo profissional.

As mulheres bonitas são julgadas pela aparência com relativa frequência. No mundo corporativo não é diferente”, afirma Marshal Raffa. Ele diz ainda que a beleza de uma candidata pode despertar sentidos de inveja e concorrência em quem estiver fazendo a seleção.

 

Beleza e inteligência

Será que as pessoas já conseguem enxergar inteligência onde há beleza? De acordo com Celso Bazzola, o caminho ainda está sendo trilhado.

Infelizmente o preconceito contra mulheres bonitas ainda existe. Nem sempre as pessoas conseguem ver que ser bela não exclui ser competente em seu trabalho. Mas é preciso ressaltar que isto vem diminuindo bastante com ferramentas de contratação cada vez mais preocupadas em analisar resultados”.

 

Segundo Marshal, esse estigma pode acompanhar a mulher por um longo período de sua vida. Seja no processo de seleção ou na sua trajetória dentro de uma empresa.

Mesmo provando competência em sua função, a promoção de uma mulher bonita acaba gerando comentários maldosos. E, depois, se ela resolve mudar de emprego, terá de provar novamente que a beleza é só um complemento. Tem que mostrar competência em dobro, sempre”, afirma.

 

Tendo como base as experiências destes profissionais de RH, vamos às percepções da nossa entrevistada, que há um ano e meio é a única mulher a ocupar cargo de direção no Instituto de Previdência de São João de Meriti e tem por responsabilidade a gestão administrativa.


Começaremos pedindo a ela que conte um pouco de sua história de vida, até chegar à sua trajetória profissional.

Eu nasci em São Bernardo do Campo/SP e vim para o Rio de Janeiro na infância quando os meus pais se divorciaram e minha mãe decidiu retornar para perto da família, que é de São João de Meriti. E assim eu fui criada numa casa reconhecidamente matriarcal, porque, embora houvesse o meu avô como figura masculina, a força da minha família sempre esteve nas mulheres, e, em alguns contextos, éramos conhecidas como o ‘Clã das Evers’- mãe, avó, tia, uma irmã mais velha e eu. E foi nessa condição que desde cedo eu aprendi o poder dessa força que habita no feminino, porque, apesar de serem de gerações que imputavam a força de uma família e do seu sustento ao homem, essas três mulheres que me criaram sempre deixaram muito claro para nós no dia-a-dia o seu poder de superação, de resistência; esse dom feminino de ser ninho, estrutura, alicerce... e eu importei tudo isto para a vida moderna, para os meus interesses pessoais e de uma geração que não necessariamente deseja mais se realizar como mãe de família e na ‘gestação’ e boa ‘criação’ de filhos, mas que quer ser profissional de destaque, ‘gestar’ bons projetos e ‘criar’ resultados incríveis, nas mais diversas áreas’”.

 

Administração Pública

Ingressei na Administração Pública meio que por acidente, quando no início do primeiro mandato do Dr. João eu recebi a oportunidade para trabalhar na Secretaria de Fazenda, e naquele momento conhecia muito pouco da natureza do serviço público. Eu não me considerava uma pessoa vocacionada a uma profissão específica, mas vi que poderia ter talento aproveitando as oportunidades que a vida coloca diante de mim. E eu fui escalando degrau por degrau do modo mais consistente e intuitivo que pude e contando com os ensinamentos das pessoas que cruzaram o meu caminho. Um marco para mim foi quando eu recebi a Moção de Aplausos da mão do nosso Deputado, e não tanto por causa da honra pública, mas porque, pela primeira vez, a solidez da minha caminhada na Administração Pública estava clara, inclusive para mim. As pessoas estão ocupadas, obviamente, com a próprias vidas, então, às vezes, elas olham para alguém que chegou em um cargo um pouquinho mais elevado e agem como se tivesse sido um acaso ou fosse ‘de repente’. E naquele quadro estava detalhado cada degrau que eu percorri desde o ingresso na carreira pública, e me fez lembrar de cada desafio que eu enfrentei e senti orgulho por tê-los superado. Cada um deles valeu muito a pena, e é só o início. Esses foram apenas os cinco primeiros anos da minha carreira”, nos contou Mariana. 

A “chefa”

Alguns integrantes da equipe me chamam de ‘Chefa’ e eu amo isto neles, porque não o fazem como demonstração vã da minha autoridade ou ‘puxa-saquismo’, ainda que para toda regra haja uma exceção [risos].  Eles fazem cheios de carinho e reconhecimento do meu respeito e apreço por eles”, afirmou a Diretora. “A ‘Chefa’ que eu sou hoje foi forjada por cada chefe que eu tive nesse caminho. Com eles eu aprendi o que eu seria e o que eu evitaria ser para a equipe que eu viesse a liderar. Lembro-me do primeiro dia em que cheguei ao Instituto e conheci a minha secretária e eu disse para mim mesma que não poderia esquecer jamais como é estar no lugar dela, e que seria para ela a Chefe que eu gostaria de ter. E eu não tenho dúvidas de que foi a empatia que me permitiu construir com a minha equipe uma relação de interdependência e confiança, que dá a mim paz e satisfação nos resultados, e a eles tranquilidade e segurança para se expressarem e desenvolverem individualmente“, concluiu Mariana.

 

O que é empoderamento?

É tomar consciência e apropriar-se do poder que já se tem... Empoderamento, para mim, não é autoafirmação - embora ela venha a ser necessária ou útil em algum momento – é a liberdade de viver e explorar toda essa nossa natureza, com segurança e espaço para tal. E essa semente só brota na sociedade se estiver corretamente plantada e geminada em nós mulheres”, exclamou a Diretora.

 

Não são poucos os exemplos que temos nessa luta pela igualdade entre os gêneros e por esse empoderamento feminino. De acordo com a afirmação de Carolina Bergmann, Técnica em Assuntos Educacionais do Prodin, as mulheres enfrentam primeiro uma luta interna pela conquista da autoestima. Porque embora as mulheres, que fazem frente e dão rosto a essa causa, pareçam esbanjar esse amor e aceitação própria, isto ainda não se estende à realidade da massa feminina. Nossa entrevistada também concorda:

Nós somos comparadas, analisadas, criticadas, difamadas todo o tempo, pela sociedade e por nós mesmas. Nós mulheres lutamos por uma causa externa que ainda não vencemos nem internamente. Mas este é um ponto para se tomar consciência e trabalhar na evolução da causa”, afirmou Mariana.

 

O preço pago por ser mulher...

Abrimos esta matéria falando do preconceito bem presente no ambiente corporativo envolvendo beleza x inteligência. Perguntamos à nossa entrevistada sobre suas percepções e vivências a respeito.

Essa questão de ser bela é realmente uma ‘faca de dois gumes’ porque é bem verdade que em alguns momentos a beleza pode ajudar a abrir portas. O ser humano consciente ou inconscientemente gosta de estar cercado do que é belo e agradável aos olhos, isto faz parte da natureza humana, e não necessariamente existe algo de errado nisto - quando está equilibrado. Então, por vezes, embora a beleza não vá e não deva mesmo ser a característica preponderante para a recepção de uma oportunidade, ela poderá facilitar sim o ganho de uma simpatia ou uma receptividade inicial que, por sua, vez abra espaço para a demonstração das características realmente importantes, como conhecimento, desempenho e competência. Mas, como já bem exposto aqui, o oposto também pode acontecer e a beleza se tornar uma ‘pedra no caminho’ profissional, se o poder decisório recair sobre pessoas eivadas de preconceitos ou ciúmes, o que torna esse processo uma ‘roleta russa’”, disse Mariana, e conclui: “É muito sensível no dia-a-dia a necessidade de provar tudo o tempo todo. Nossa caminhada será muito mais veloz e gloriosa quando, finalmente, não precisarmos mais dedicar energia provando coisas, e dedicarmos essa mesma energia para nos desenvolvermos ainda mais”.

 

E poderíamos acrescentar mais gume à essa faca, se pensarmos no quão presente é o assédio sexual, ainda hoje.

Esse é dos cenários mais indigestos para uma mulher no ambiente profissional, na minha opinião. A cultura da objetivação sexual da mulher é forte a um nível que beira o absurdo e está, infelizmente, normalizada. Todos os dias mulheres precisam dar sorrisos amarelos constrangidas por elogios inapropriados, comentários lascivos e, ainda, têm de ficar felizes que eles sejam apenas ‘brincadeiras’, porque, afinal, existe quadro ainda pior, quando algum tipo de proposta é insinuada ou alguma concessão é esperada - clara ou implicitamente - por parte da mulher em troca da sua posição”, afirma a Diretora Administrativa do Meriti Previ.

 

Parece que ter jogo de cintura para enfrentar os assédios é requisito quase curricular para uma mulher e, consequentemente, gera um desgaste e um atraso inimaginável.

O assédio é real, constante e insustentável. Este, para mim, deveria ser o primeiro aspecto a se mudar quando falamos dos desafios que nós mulheres enfrentamos em ambientes profissionais. O assédio é mais do que agressivo, ele é enfermo. A beleza feminina precisa ser descriminalizada no ambiente profissional”, comenta Mariana. “E, para fazer justiça à minha história, eu sou grata por Deus ter colocado também no meu caminho, muitas pessoas maduras neste sentido. Apesar de ter passado pelo assédio em diversas ocasiões, existiram essas pessoas fundamentais na minha caminhada que me deram a oportunidade pura e simplesmente por crédito no que eu era capaz, e foram elas que me garantiram o ambiente saudável que eu precisava para me desenvolver, e eu desejo do fundo do meu coração que esta seja a minha realidade em todos os outros desafios profissionais que enfrente pelo meu caminho; e a realidade de todas as mulheres, em breve. Espero que não seja um desejo utópico, ingênuo”, conclui.


...No Meriti Previ

Mariana disse ao ED se sentir muito feliz no Instituto que, apesar de ter um quadro majoritariamente masculino, não vê qualquer tipo de dificuldade em lidar com eles no dia-a-dia e exalta o time feminino que a cerca.

Eu tenho mulheres fantásticas e maduras na minha equipe e morro de orgulho delas. Elas se apoiam, auxiliam, se desenvolvem e, quando, por ventura, se ventila algum problema originado nesse tipo de competição e ciúme, a própria maturidade desse organismo, que é a equipe, suprime a crise. ‘Minhas meninas’ não deixam nenhuma faísca se tornar um incêndio. Elas são muito sábias, não acha?”, ponderou a Diretora. “Essas mulheres me deram e me dão muita força na minha liderança, hoje, justamente porque se comportam como todas nós devemos nos comportar diante da ascensão de outras mulheres. Recebo demonstrações cada dia de admiração e respeito por parte delas e isto só aumenta o meu desejo de representá-las cada vez mais e melhor. Elas contam comigo para que o nosso lugar de fala, de fato, tenha voz”, completou.

 

A mulher na Direção

Quando eu assumi o cargo de direção, pude perceber um pouco do que chamam de machismo estrutural e institucionalizado. Nas primeiras reuniões que participei, minhas falas foram interrompidas em alguns momentos, numa tentativa até de ajudar - como se por ser mulher eu necessitasse de um apoio ou proteção extra. Em outros momentos eu vi expressões de perplexidade, como se uma opinião contundente ou uma voz de autoridade não fosse esperada de uma mulher jovem. E percebi que, ao menos nesse meu contexto, não necessariamente havia maldade ou má intenção nessas atitudes. É importante também tomarmos consciência do traço cultural e educacional que estamos combatendo ao buscar a igualdade, para que o ativismo não se sobreponha burramente à paciência e à compreensão que nos trarão às estratégias corretas. Estamos reeducando uma sociedade, e a educação é justamente um dos talentos femininos. Eu decidi ganhar o meu espaço na força das virtudes femininas e não minimizar minha feminilidade e me igualar às atitudes tipicamente masculinas. E assim foi. Não tardou muito e eu já não sentia nenhuma diferenciação entre a força da minha palavra e a dos homens, e contava com todo um respeito e consideração de iguais com a Diretoria. Esse desafio foi vencido... Que venham os próximos, porque a cada passo de crescimento nós mulheres seguimos, enfrentamos os tais desafios em dobro. Mas, sabe... se formos inteligentes e otimistas, conseguiremos tirar prazer e satisfação em um cenário de conquista de espaço, respeito e reconhecimento”, afirmou a Diretora.

 

Perguntada sobre essa “guerra dos sexos” no ambiente de trabalho, Mariana disse:

Não gosto do antagonismo que se criou entre feminino e masculino, como se para mostrar o valor da mulher fosse necessário denegrir a imagem e diminuir a força do homem. Feminino e masculino são forças igualmente poderosas e complementares - Yin e Yang, Preto e Branco, Terra e Mar - e eu tenho muito orgulho e sou grata por cada um dos meus funcionários ou dos meus pares do sexo masculino e da contribuição dessas características masculinas na operacionalização de um trabalho. Mas, ainda precisamos que se reconheça que na busca das mesmas oportunidades e experiências, a balança segue sendo desigual para nós mulheres”.


Para concluir...

As mulheres precisam sim se amar, se aceitar e se desenvolver individualmente partindo dessa base de generosidade consigo mesmas, mas essa saúde emocional se reflete sobretudo no modo como as mulheres lidam com as outras mulheres. Uma mulher curada das suas emoções e consciente do seu valor não cai nessa ‘cama de gato’ que é a competição e o ciúme entre a classe feminina. E, convenhamos, na maioria das vezes, é exatamente o que acontece. Isto denigre a nossa imagem e atrasa demais a conquista do nosso espaço. Quantas vezes já se escutou que juntar muitas mulheres em um ambiente de trabalho causa problemas?! Se eu, como mulher, sei da minha capacidade individual e profissional, por que motivo eu vou levantar suspeitas sobre as oportunidades alheias? Se eu sei que sou íntegra e mereço respeito, por isto, por que vou desmerecer a trajetória de outra mulher? E há um cuidado que temos de tomar aqui: Se eu acho que uma mulher só chegou a algum lugar, porque é jovem, bonita, apadrinhada, abastada ou porque deva ter utilizado de algum subterfúgio que não a competência, eu estou declarando que eu acredito que uma mulher, ou que eu mesma, só possa alcançar por meios dessas coisas, e então a nossa luta e busca serão absolutamente invalidadas, porque estou tentando convencer à sociedade com palavras diversas às minhas ações. Cada vez que vejo uma mulher em um alto cargo, eu enxergo como mais uma conquista alcançada por todas nós. Cada mulher que foi mais longe do que eu já consegui chegar, aplainou o caminho, derrubou mais obstáculos, abriu precedentes e tenho prazer em cada uma delas como símbolo feminino. Amo quando vou a Congressos, Cursos e Eventos e me deparo com tantas mulheres que já ocupam o cargo máximo dos Institutos de Previdência, que é o ambiente profissional que estou inserida hoje e é extremamente técnico, sério e exigente. Estamos começando a ser reconhecidas! Eu me regozijo em cada presidente mulher de RPPS, cada Secretária Municipal, cada Vereadora do nosso município, cada Empreendedora de sucesso, cada mulher que ousou e se expôs, vencendo por todas nós”, finalizou a nossa entrevistada.

 

Mariana Evers é uma das muitas – ainda que não o suficiente – mulheres que trilham uma carreira sucesso, com muita coragem e determinação. A escolha do Jornal Em Destaque por trazer sua história de vida e suas percepções do mundo feminino no mundo corporativo teve por objetivo não só evidenciar esta mulher, em si, mas, sobretudo, conceder e legitimar esse “lugar de fala”, a fim de encorajar todas as mulheres leitoras e seguidoras do ED, na sua luta diária pelo seu merecido e legítimo espaço na sociedade, por direito.  

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